domingo, 31 de outubro de 2010

Anpocs 2010-II


Passos medidos.

Desci do ônibus e fiz o mesmo primeiro trajeto que o realizado em 2009, desta vez, com calma, sem correr para fugir da chuva. Olhei o chão com calma, saboreei o odor da existência das éguas das carroças; levantei a cabeça e parei, olhei tudo que a vista alcançava ao meu redor, respirei fundo e soltei os ombros. Alívio? Ainda não.

Repeti os passos de um ano atrás, com certa cautela eu diria. Risquei no caderninho de bolso centenas de anotações distintas, sentimentos, percepções, reflexões, ex-embriaguezes, detalhes, minucias, reflexos, momentos, espaços; tem coisas que só o estímulo visual, associado à total rememoração, permitem à alma. Alívio? Ainda não.

Os dias foram passando, minhas posturas e existência naqueles espaços e momentos seguiam sendo as mais racionais que eu poderia conceber. Andar por este lado da rua ou aquele?, e eu me debruçava nisso, e fui capaz de fazer anotações sobre qual escolha e o por que dela.
O copo colocado em minha frente, eu virava.

Uma grande percepção sentado à mesa na padaria. Puxa vida, então foi isso, como fui estúpido!Faz todo o sentido com o todo. Tão burro! Fui até a farmácia e voltei, sentei, levantei, mais inquieto do que uma lebre que sabe será amordaçada e morta em um cubículo de um metro quadrado; vou ali. Fui e voltei novamente, me sentei, mergulhei trinta metros pro fundo do canto mais profundo do meu encanto enquanto percepção.

É apenas uma cadeira de padaria no sul de minas.

É apenas uma cadeira de padaria no sul de mim.

Tantos apenas e detalhes e penas em micro detalhes, precisaria ter 4 braços direitos, 4 caderninhos e 4 canetas para transcrever tudo o que me vinha em mente em muitos momentos; dividi as funções, sem o Toddy prossegui na busca por esta compreensão, que, confusa, por fim chegou, e rapidamente ganhou notas, cordas e tom.

Alívio? Foi o que senti.

...e nada mais vai voltar a ser como em dias que

meus passos não diziam nada...

doce desejo

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Anpocs 2010-I.

A conversa mais incrível da anpocs 2010.

Anpocs, explico aos amigos, é a associação nacional de pós-graduação em Ciências Sociais, e esta associação realiza um encontro anual no qual são apresentados projetos, pesquisas, são discutidos temas específicos e gerais, tudo ao redor destas tais ciências sociais.

Desde a primeira vez que coloquei os pés em uma universidade, e não era para jogar bola ou andar de bicicleta, me disseram “as conversas de corredor são os grandes momentos destes eventos, converse muito”; houve até certa vez que me disseram “o papo de bar será essencial na sua carreira acadêmica, mas como você ainda é menor de idade, então, está de fora deste papo”. Lembranças que me vêm em mente quando caminho por Caxambu, cidade do encontro da anpocs, e me vejo pensando por que fui parar ali.

Pois bem, de fato, as conversas pelos corredores, pelas mesas, pelos saguões de hotéis e bancos de praça são momentos muito proveitosos nestes encontros, a formalidade está suspensa e se conversa, com maior liberdade, sobre o tema proposto.

No encontro da anpocs deste ano, do qual acabo de retornar, tive uma incrível conversa de mesa enquanto almoçava na última quinta feira. Sem dúvida, se trata de uma grande vanguardista, de relevante importância para o pensamento sócio antropológico e político do Brasil que está por vir. Os verdadeiros usos, significados, objetivos e subjetividades da ciência estavam lá, naquela pessoa, que, sem se encabular, puxou uma cadeira e se sentou comigo.

Trata-se de Beatriz, que no auge dos seus quatro anos já sabe escrever as letras. Que gosta de sorvete de coco, sorvete de creme com leite condensado, sorvete de morango, sorvete de chocolate, sorvete de kiwi e até de orégano! Beatriz freqüenta a escola, tem um coleguinha chamado Gabriel, mas, obviamente, não sou eu, ele é que nem eu. Beatriz mora em uma cidade próxima, e se locomove por meio daquele negócio aonde vão muitas pessoas, tem muitos bancos, um moço vestido de preto (que não é o Zorro), mas que não é um ônibus, é outra coisa.

O ato de relativizar faz-se presente aqui, em Beatriz, assim como o neologismo, o fantasiar ao redor do mundo, por se estar no interior deste. Seu irmão não tem anos, tem seis meses, que não é ano ainda, faltam mais seis.

Beatriz: tanta gente divagando sobre o que foi e o que será, com tantos itálicos entre aspas em meio a notas de rodapé e pequenas ressalvas, quando, na verdade, o que foi e o que será, sintetizado está, em sua mão que indica os quatro anos de vida: o que foi? O que será?

Sem dúvida, a melhor conversa da anpocs não teve cerveja, bem como as piores e todas as outras, inclassificáveis, mas teve sim uma boca que se abria e lambia o sorvete da colher plástica translúcida até esta se tornar transparente e mostrar uma boca recheada de dentes de leite.

sábado, 23 de outubro de 2010

Corinta e Parmera.

Precisava sair cedo de casa, em pleno sábado. Acordei atrasado, comi rápido, me vesti e sai. Como de praxe no meu cotidiano, vesti uma camisa do corintia, modelo branco de 2002, e fui. Então três situações foram relevantes:

1)Entrei em uma daquelas grandes lojas de roupas que vendem de cuecas e calcinhas à sapatos, perpassando por roupas para o calor e o frio. Quando subia a escada rolante observei, ali embaixo, um rapaz com uma camisa do corintia de 95 e outro com um casaco desses comemorativos do centenário. Quando desci de volta ao térreo, o rapaz com a camisa de 95 me disse “é amanhã!”, respondi com um “tem que ser”.


2)Já estava voltando pra casa, mas ainda estava no centro, um homem carregando duas mochilas rasgadas e um cobertor, com a voz tonteante, me pediu uma ajuda para pegar um ônibus (não me importa se era realmente ônibus). Abri a parte da frente da mochila, aonde havia algumas moedas, e as dei para ele, que falou “irmão, você é coríntias. Eu também sou! A gente é do mesmo time!”, “só no vai corintias hein?”, “olha, amanhã, mesmo se perder, não me importa, eu sou corintias!”.


3)Já estava praticamente na rua de casa,caminhava por uma calçada, na outra um homem com um casco vazio de tubaína, ele então falou “amanhã tem corintias e palmeiras!”, “vamos comer porco?”, lhe perguntei, e respondeu sorrindo “é”. Julguei que o diálogo havia acabado, quando ele apontou o gargalo da garrafa a mim e disse “ao vivo!”, e eu repeti “ao vivo!”.


E tenho certeza, se eu andasse mais pela rua, outras manifestações com relação ao jogo de amanhã ocorreriam, fossem por identificação, como as que citei, fosse por parte daquela saudável provocação por parte dos adversários, que não ocorreram. Corintias e Parmera é outra coisa. Outra.


Agora é esperar, com o coração cada vez mais perto da boca, pra saber se amanhã por volta das 18:00 horas as manifestações de identificação serão por lamentação ou por felicidade pura e extremamente concentrada.


Vai Corintias!


Clássica imagem da final do paulistão de 1999: rivalidade à flor da pele nessa época, grandes vitórias e inesquecíveis derrotas

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ignácio de Loyola.

Encontramos com Ignácio no saguão do hotel, ele esfregava as mãos e tinha um óculos pendurado no pescoço, o qual, notei que em alguns momentos, sobretudo quando olhava fixamente para alguém que lhe falava, tinha a ponta de uma das hastes mordida por ele.

Durante o almoço foi nos adiantando um pouco do que falaria mais tarde naquele dia, realizou questionamentos conosco que, no correr do dia, seriam realizados a um público grande (matematicamente, média de 85 pessoas em cada período). Grande e composto não só por universitários da casa, mas também, em grande medida, por trabalhadores, gente da cidade que não costuma meter as caras na universidade (mas que tem muita gente lá dentro advogando em seu nome).

A fala de Loyola na tarde me criou alguns sorrisos, ora por parte de que o que ele contava e dizia realmente me soou como ironias da vida, e ora por parte de um reconhecimento. No final da tarde, em sua última frase, relato, narração ou seja lá o que for (Benjamim aos infernos!), deixei que algumas lágrimas internas se externalizassem.

Igualmente, à noite, os comentários acerca de sua obra, por ele mesmo, tocaram aquele meu lado artístico do peito, aquela minha sensibilidade desde tão cedo nutrida, e em muitos momentos recentes sentida por mim como sendo sufocada por esta ciência maligna a qual me entreguei. O embate entre ambos me derruba, e esta sensação fez-se presente na noite de 19 de outubro com Ignácio tanto quanto na noite de 7 de agosto com Gullar.

Ao pararmos o carro na frente do hotel para deixarmos Loyola, ele tardou em descer, pois acabava de contar mais um caso. Ao me despedir dele ainda agi como o meu eu mais estabanado, derrubando o envelope que ele carregava.

Demorei para conseguir dormir pensando nas sensações que o dia me causou, bem como, sentindo os pensamentos que este dia, próximo deste senhor de sensibilidade cotidiana aguçadíssima, me causaram.

A banalidade, a mediocridade e o clichê fazem parte da nossa vida”.



Pedro, Ignácio, Alex e eu, ao final da jornada.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

adjetivos.

Após um dia tão artístico, literário, me permito definir o sentimento em um adjetivo tão corrente nos tempos atuais:
foda.

domingo, 17 de outubro de 2010

Dona Maria.

O que escreverei abaixo articula com:

http://beusozinho.blogspot.com/2009/08/ta-doendo.html

Dona Maria foi viajar, no dia 13 de Dezembro de 2009 ela pegou um ônibus para São Paulo, aonde passou natal, ano novo e mais alguns meses; depois foi pra Bahia, aonde pasou alguns meses numa cidade e outros noutra, e voltou para a primeira cidade na Bahia. Retornou a São Paulo aonde ficou mais alguns meses e, finalmente, no dia 12 de Outubr ode 2010, retornou ao mesmo prédio em que faço residência.

Hoje ela convidou a mim e ao rapaz que mora no outro quarto para irmos em seu apartamento comer sua "pizza" (parece-se mais com uma torta, mas se ela diz que é pizza, quem somos nós, meros jovens [como ela nos chama] que, se somarmos nossas idades temos pouco mais da metade de toda a vida desta senhora?). À tarde não fui.

Quando cheguei da rua, por volta das 20:30, o interfone tocou, era Dona Maria perguntando se eu estava ocupado. Disse que não, e rapidamente desci em seu apartamento.

Ela me recepcionou perguntando se eu estava estudando e queria levar a pizza para casa, eu disse que não, e, no maior estilo pedro robertiano, já fui puxando uma cadeira e lhe perguntando sobre sua viagem. Dona Maria contou os detalhes de onde passou os últimos meses, de quais parentes visitou (muitos deles ilustrados pelas fotos em sua estante), os trajetos que realizou, me perguntou por que quando ela fala no celular ela ouve sua voz como se tivesse um eco etc.

Comentou, e neste aspecto concordei com ela, que o que está acontecendo com o Corintias é uma penitência:

-Tava tão bem, ganhando todos os jogos, de repente começa a perder.

-Mas a senhora acompanhou o corintias enquanto viajava?

-Claro, eu adoro ver futebol, mais ainda quando é o Corintias. E hoje eu fiquei tão triste que o Ronaldo fez dois gols e o juiz não deixou ser gol. Sabe, eu acho que o juiz era Guarani. O juiz e aquele outro com a bandeira.

-É Dona Maria...

-Mas e ai como ficou, o Corintias tá com 50 pontos, e os outros dois times?

(...)

Dona Maria é uma senhora simpática.

Lúcida e simpática.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Hoje.

Começou como mais um dia pesado e horripilante daqueles em que eu não conseguiria fazer nada senão brigar com os anjos, demônios, arcanjos, pombas giras, budas e divindades religiosas afins que pululam aos milhões em minha doentia cabeça.

13:30, vi uma mensagem no Twitter do Dance Of Days perguntando pelo Nenê. E então, numa tônica meio "harold crick e seu relógio", posso dizer que o Twitter me salvou de mim mesmo.

Sai de casa, e as 16:45 estava em um ônibus para Bauru, fui andando até o local do show [metade do trajeto, por irônia, com uma jovem que estava no ônibus e iria no show].

No pão de açúcar eu comprei um saco com três pacotes de maizena [pois o plano era passar a noite por lá, e este seria o suprimento], uma coca de 600 ml e um sanduíche. Fui pro lugar do show.

20:30 a banda chegou, 20:50 eu entrei na casa por intermédio de um deles. 22:00 começou o show, que foi acabar lá pelas 23:30, e nesta uma hora e meia eu experimentei de todos os sentimentos que vem se fundindo [e me fudendo] nos últimos anos; e, devo dizer, isso é realmente bom, é sagaz. Senti minha pele queimando; apenas parado, em pé, com os olhos fechados e cantando com força, pouco me importava que havia gente se esbarando com truculência em mim.
Sessão do descarrego mesclada com sessão de psicoterapia;

Sai de lá e peguei carona com a van de uma banda de Tupã; detalhe: o motorista havia perdido o óculos, eu o encontrei quebrado embaixo do meu banco.

Este é mais um relato emocionado, com ar de feliz e aliviado, e é isso, com exceção do feliz. Foi muito bom abaixar a cabeça ao chão e berrar, com toda a minha força, aqueles versos e refrões que dizem tanto sobre mim, e me acompanham nas mais duras crises nos últimos 6/7 anos.

E, sem vergonha, disse ao Nene no final do show, lá pelas últimas músicas: vocês são melhores que o meu anti-depressivo. Ele desfez o sorriso e apertou minha mão com força. É um cara consciente.

A conta do rolê:

20 paus o ônibus de ida;

7 paus no pão de açucar;

5 reais no cd novo do dance;

7 reais pra ajudar a gasolina dos cara de Tupã;
1,20 no suco de uva perto de casa.

Agora é dormir pra amanhã acordar pra um novo dia; será um dia diferente?

Devo dizer, da fase decadente de minha juventude, hoje será um dos dias mais gloriosos quando lembrado.
São poucos os que tem o privilégio de ter um registro fotográfico com a banda que mais perfeita e amplamente lhe toca o peito.
Valeu Dance!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

silêncio.

silêncio
.
.
.
.
[espera acabar]
.
.
silêncio
.
.
.
[pronto; bosta]
a inacreditável inversão, de dor em sofrimento, é o que permite os pontos corridos.
e é o que eu venho sentindo desde quarta feira.
e é o que temo até quando durará.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

3 Toques.

Caros amigos que me seguem neste blog, a partir de agora estarei escrevendo também em outro espaço, em um dos blogs do "3 Toques", o "Templo da Bola". Escreverei semanalmente às sextas feiras.
Hoje saiu a minha primeira coluna "O momento do Gol".
http://3toques.com.br/blogs/templodabola

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ônibus?


Como

Seis

Horas

Dentro

De

Um

Ônibus

Podem

Fazer

Tão

Mal

Meu

Bem

?
?
?
?
?

sábado, 2 de outubro de 2010

Dinosaur II.

Então chegou o dia. Vim do interior pra cá na terça, e na quarta o dia era para isso [antes disso, acabar alguns afazeres, claro]. E então a minha existência passou a estar, lá pelas 5 da tarde, compenetrada neste grande evento: o show do Dinossauro Junior.
Devo dizer, de início, que algo me fez não estar íntegro no show, ainda averiguo exatamente qual foi este fator.
Voltemos ao espetáculo.
Puxa vida, que show. Não sei ao certo como comentar, de modo que, prefiro não fazê-lo.
Apenas gostaria de colocar como me senti bem em fechar os olhos e viajar como viajo na sala de casa, mas ao abri-los, ver o Mascis ali na frente, com seu cabelão branco tocando aqueles solos.
A grande parte do show em que estive íntegro, realmente, me fez toda a diferença nesta vida
Aliás, isso sim devo dizer, meus ouvidos ainda apitam, passei a quinta feira surdo e a sexta com um ronco na cabeça, hoje os ouvidos começaram a apitar. Vide a foto da parede de amplificadores, da qual me mantive próximo durante todo o show; vide o video.
***
Confesso que os últimos tempos, se tem tido uma porrada de coisas ruins, tem tido algumas boas que tem um brilho e um peso incríveis.
2010 já está marcado pra mim como o ano que vi duas grandes bandas, importantes pra mim; 2 das 3 bandas que mais ouço desde que entrei na faculdade: Yann Tiersen e Dinosaur Jr. Falta-me agora um show do Bill Callahan.
Ai sim, estarei "formado".



Pedal de efeitos, modesto, do Mascis.



Modesta meia dúzia de amplificadores.


Aqui em cima, o J. Mascis.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Anedota II.

Apesar da ligação do Senhor José Serra ao ministro Gilmar Mendes, tentando evitar a votação da propostas, não será necessária a apresentação obrigatória do título de eleitor para votar.
Logo, gastei 14 paus em sedex à toa!
É como diz aquela canção do cazuza: burocracia, eu quero uma pra viver.
Ps: em breve meus comentários acerca do show do dinossauro junior.