sexta-feira, 30 de abril de 2010

Você me conhece?

Eu sempre fui adepto,
De trocar olhares,
Em alguns lugares,
Que não tão comuns, não.

Escada de buzão é massa,
Porta de metrô é chapa,
Gosto do Terminal Lapa,
Mais do que da Barra Funda.

Mas de uns tempos pra cá,
Muito tem me incomodado,
Quando eu percebo,
Que sou observado.

Dentro do meu ovo,
Através das frestas,
Da cortina quebrada,
Você me conhece.
Você me conhece?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

"Boquinha de cemitério".

O rapaz e a garota (ou a garota e o rapaz, a ordem não importa) haviam marcado de sair com uns amigos, sexta feira a noite, depois da novela. Alguns amigos antigos da garota voltaram a dar as caras. A ironia se deu pois um destes antigos amigos dela, agora, é colega de trabalho do rapaz, e ao perceber esta ligação se apressaram em realizar um grande (re)encontro.
No dia combinado a garota estava mal, dores de cabeça e coisas do gênero, disse para o rapaz ir sozinho. E ele foi.
Quando chegou no samba, sentou-se com os outros rapazes, e algumas namoradas destes, explicou a ausência da garota e foi logo chamando uma cerveja. Frango a passarinho cheio de gordura saturadamente total, polenta frita que mais parecia assada de tanto tostar em fritura tosca. E uma banda tocando samba, tinha até um espaço para as pessoas se sacolejarem um pouco.
Com o copo americano na mão se juntou na roda de amigos e desconhecidos, ali no meio. Parou o olhar em uma moça que não se parecia com a garota. O americano sempre na borda, três goles e borda, "valeu mano, a próxima eu pago". E por ai vai.
A moça sambava, simplesmente, como todos os outros trabalhadores cansados daquela roda. Ele viu que ela tinha um anel liso. Mas apenas viu, e continuou olhando. Ela se aproximou, sambou do lado dele, praticamente com ele. Lembrou que o mano era amigo da garota, e lembrou da garota, e ai deu vontade de fumar um cigarro. "Você fuma moça? Vamos ali fora, que aqui não pode".
-Você samba.
-Isso.
-Você é bonita.
-Brigada.
-Tá sozinha?
-Tô, sai um pouco de casa. Sabe né?
-Sei.
A moça se aproximou dele, como se fosse tragar o rapaz em forma de fumaça meio solidificada em carne de humano fumaçante.
-Olha, eu tenho uma garota em casa. E tem uns amigos dela aqui.
-Também tenho alguém em casa me esperando. Acontece.
-Olha - atirou a bituca na rua - mas é boquinha de cemitério hein?
Um tapa na cara, doído, o copo voou para a rua, pertinho da bituca, certamente ficou a marca do anel na cara dele, se lembrou do fantasma.
-Boquinha de cemitério? Baforenta é a mãe!
Na verdade, ele quis dizer boquinha de siri.
Voltou pro bar, sentou na mesa, deixou doze reais com um dos manos e voltou pra casa; voltou pra garota.

ps: realmente, uma primeira fase maravilhosa, fantástica.
ps2: alcides, faz um blog, o que você diz aqui como anônimo ficariam lindas num blog.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Libertación! (ou, a praça é nossa) II.

No dia 23 de fevereiro eu escrevi um texto aqui com este mesmo título (colaria o link se este navegador aceitasse que se cole coisas). Comentei sobre a tensão na véspera da estréia do corintias na libertadores. Sentia esta tensão nas conversas das pessoas, em alguns locais de São Paulo, e, sobretudo, a sentia em mim, até por que, estava de férias, e passava grande parte do tempo frente aos mesas redondas e debates bolas da tv, inflamando-me para esta competição.
Bem, chegamos a última rodada da primeira fase, e temos grandes chances de sairmos como melhor colocado geral. Poxa, saiu bem melhor do que a encomenda!
O que será que se passa pela cabeça do corintiano que, em um ônibus Morro Grande, naquele dia 23 de fevereiro, cogitava do corintias se quer passar para a segunda fase?
Conversando com o porteiro do prédio, Claudinei (um cara simpático), ele me disse que as oitavas de final já começam semana que vem.
Puxa vida, não terei tempo de me acostumar com essa idéia, precisava no mínimo de duas semanas.
A primeira fase termina hoje, e espero poder escrever amanhã realmente, uma primeira fase excelente, e que venham as demais!!!
Vai corintias.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O peso de uma girafa.

Sabe, quando eu comecei a escrever o Manifesto Vanderlei Luxemburgo, durante uma aula da licenciatura, não achei que ele ia ganhar, ou melhor, que o faríamos ganhar a relevância e o espaço que ganhou. Como eu disse (e o Alex dissera o mesmo), "saiu melhor do que a encomenda".
O panorama aqui é o seguinte: existe apenas um grupo que domina a política. Desde 2008, quando vim para cá, vejo as mesmas figurinhas (carimbadas) propondo lutas (muitas delas, justas e necessárias), paralisações, greves e etc. O importante agora é salientar que há apenas um grupo político e organizado forte por aqui, as razões, não sabemos; ou não sabíamos, e aqui exponho a minha compreensão.

Há pouca (quase nenhuma) oposição, pouca discussão com pessoas que discordam deste grupo, ou seja, há pouca discussão em si. Eleição com chapa única é carne de vaca. Aliás, enquanto escrevo estas linhas, sentou-se ao meu lado um rapaz que fez oposição (ferrenha e seriamente) em 2008, e, além de sofrer um 'golpe', é duramente perseguido em frases ofensivas pelos banheiros.
Não costuma haver debates, não costuma haver muitas chapas e nem oposição, e, pra piorar, vai ter eleição pro dêá. "Poxa, poderíamos nos inscrever como chapa, a gente causa debate e tudo, e depois sai fora às vésperas da eleição". Foi com uma frase mais ou menos assim que surgiu a idéia, numa fila de R.U., de candidatarmos a "Chapa Vanderlei Luxemburgo".
Nossas propostas giravam em torno de absurdos, tais como "trazer uma girafa para o campus" e "acabar com as diferenças entre gregos e troianos: para simplesmente agradar a todos". Nossa bibliografia e principal referencial teórico era Alf, o eteimoso. Vestiamos terno e usávamos um botton com o rosto de uma das moças do "Rebelde" (razão pela qual fomos chamados de machistas).
Apesar disto tudo, fomos levados a sério (compreendo que estávamos em um espaço sério e tudo): "vocês estão propondo terceirizar a faculdade com esta girafa", "você vai matar a girafa tirando-a de seu habitat natural".
Em vez de dirigir questões palpáveis para a outra chapa (muito séria e digna de meu respeito), ou mesmo nos ignorar, a preocupação latente por parte de muitas pessoas nos debates em que participamos, era nos atacar. Fascistas, racistas, machistas, direitistas, playboys, 'pupilos do poker' e etc. O único que me chateou foi o 'fascista'.
Quase uma semana depois daquela agitada e politizada terça feira, chego a real conclusão de que, sim, nos atacaram, mas a ofensa que eles desferiram não foi a nós, mas sim a eles próprios.
Pois quem não aceita o debate, quem acredita que haver uma chapa "do outro lado da mesa" (curiosamente fomos colocados do lado direito da mesa) é uma ofensa, quem acredita que haver uma direita no processo eleitoral é uma ofensa, e propõem que estes (nós) não deveríamos estar ali, sinceramente, esta propondo um monólogo político, e não um debate. E isto, eu acho, não é democracia.
Logo que nos retiramos do debate, sob o racha da chapa, pois alguns membros decidiram trazer um hipopotamo em vez da girafa, muita gente saiu conosco e veio fazer perguntas, conversar e etc. Nos dias seguintes percebemos a ferida que abrimos aqui, pelo menos em alguns colegas, o que vem proporcionando conversas muito produtivas, tanto com pessoas que aprovaram a ação quanto com pessoas que reprovaram. Alguns não nos olham na cara e seguem proliferando ofensas, uma pena, poderíamos conversar.
Fazer política sem oposição é fácil. Difícil é aguentar uma girafa.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Triunfal retorno.

...domingo a tarde, era páscoa, e sentei o dedo no teclado descarregando a raiva contra a omissão de/em um blogue por ai.
Quarta feira de manhã entrei no tal blogue novamente e vi retaliações (escreve assim?). Pensei "hum, vou responder", e sentei o dedo novamente, em dois comentários mais do que diretos. Nova série de retaliações, envolvendo citações jurídicas. Como temo o direito, achei melhor sumir um pouco daqui.
Mas agora eu retorno!
Após alguns dias de angústia e alguns de satisfação; após a eliminação do corintias no paulista (angústia) e sua classificação para a segunda fase da libertadores (satisfação); após termos metido as caras a tapa nas eleições pro dêá e termos nos retirados destas, tendo provocado frisson suficiente. Enfim, eu retorno a estas linhas tão minhas, este espaço tão meu e que me faz tanta falta.
O que eu digo após todo este tempo (pouco mais de uma semana)?

Devolvam a nossa girafa!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Molhando os pulmões.

Sai de casa cedo. Relativamente, vocês sabem.
Assistência técnica (em breve postarei "a novela da assistência"), marcar passagem, almoçar, ir em médico, talvez remarcar a passagem. E, sobretudo, andar.
Desde que sai estava cinza, com garoa, vento; vestia camiseta de manga cumprida e calça. Não cheguei a abrir o guarda chuva, a garoa, mesmo quando grossa, não incomodou.
Desci na marechal, peguei um ônibus para subir a angélica, desci no ponto logo após o mequidonalds, exatamente como fazia nos dias de cursinho. O vento frio no meu rosto, a música nos fones, naquela esquina, me soaram como certa nostalgia.
Na assistência nada se resolveu, como eu previa, mas pelo menos conversei com um ser humano.
Fui até a barra funda, marquei a passagem e fui comer um hambúrguer no shopping. Me senti um misto de estadunidense com trabalhador paulistano de escritório de multinacional em conjunto empresarial, tem muito disso aqui: constrói-se um prédio gigante, em cada andar dezenas de salinhas com um banheiro, pronto, é um escritório.
Tinha direito a refil de refrigerante, tomei um litro de coca, to arrotando até agora.
Sai de lá, peguei um ônibus até o terminal lapa, um dos lugares de São Paulo mais bonitos e gostosos pra mim. Sabe aquele meu chaveiro preto escrito "nescafé" em branco? O ganhei em um guichê do terminal, em janeiro de 2006, quando comprei um café expresso lá. Isso me emociona, de certa forma, não é 'só' um chaveiro.
Andei um tempão até achar o médico. Ele disse que tá tudo bem com os exames, mas disse aquilo que diz todo doutor, pra fazer exercícios físicos, não fumar, regular os alimentos. Esse médico foi a única coisa do dia que quase me chateou (não que eu tenha saido de casa feliz, ou saltitante; talvez me chatear mais fosse ser muito difícil).
Descobri um ônibus para casa e aqui cheguei. Cochilei vendo espanglês, tomei um café com meu pai ouvindo músicas novas dele, conversei com minha mãe sobre o projeto dela, comecei a espetar meus velhos rebites no meu mais velho ainda cinto.
Enfim, vivi um pouco hoje longe da poeira dos meus armários.
Sai para molhar os pulmões na chuva, mesmo que tenha sido na garoa.

sábado, 3 de abril de 2010

Europa (com um toque de Brasil).

Fui até a paulista hoje cedo comprar uma camisa do corintias (amigos, o tema não é o corintias, sigam a leitura), legitimamente contrabandeada, que me foi vendida sobre a promessa de ser original, e eu acreditei. Devo ressaltar que antes de ir ao piratódromo passei em uma loja do corintias, e as camisas mais bacanas começam com preços de 90 reais, chegando a 170. O mais correto, para mim, foi, então apelar para uma cópia fidedigna e bem mais barata, aliás.
Bom, sai do local, feliz com a minha mais nova aquisição guardada na mochila, e fui pegar o metrô para a casa da minha vó. Estação Trianon-Masp, no olho da paulista, linha verde. Esperei alguns minutos na plataforma e então chegou o trem, diferente do que me acostumei a andar aqui em São Paulo, arredondado, brilhante. Ao lado da porta um enorme adesivo "este é o 12º novo trem do metrô - governo do estado" e etc.
Entrei no vagão procurando detalhes, um chão azul escuro com marquinhas em outros tons de azul, bancos arredondas em tons águados de verde e azul, corrimões e pegadores prateados, brilhando de novos. O cheiro era de novo, só faltavam plásticos bolha nos bancos.
Pensei "puxa vida, parece que estou naquele trem que liga Londres a Paris". Foi então que uma moça se aproximou de mim, me deu um papel escrito "preciso comprar arroz e feijão para meus irmãos, é melhor pedir do que roubar".
Enfim, minha estadia na Europa durou apenas 2 minutos, eles se esquecem das prioridade: arroz e feijão.

Ps: este vagão estava na linha Vila Madalena - Ipiranga, para quem não conhece São Paulo é uma linha que passa pela paulista, e faz paradas em pontos estratégicamente elitistas, como a própria Vila Madalena. Fiz a baldeação e peguei a linha azul Jabaquara-Tucuruvi, que são duas quebradas, uma no sul outra no norte, ai sim eu entrei em um vagão produzido na década de oitenta, levemente abandonado e fedido.