domingo, 16 de agosto de 2009

O que fazer?

Estavamos juntos, quatro em um apartamento. Daqueles pequenos, dos nossos. Que são nossos, como se fosse um extensão do outro. Já passava de uma e meia da manhã, eu queria ter saído, ido sacolejar os ossos, mas não fui. Alguns já dormiam quando ouvi uma porta batendo bruscamente, seguida de gritos femininos clamando por socorro. Levantei certo de que deveria abrir a porta e buscar oferecer a ajuda que se pedia (sem se quer imaginar o que fosse e/ou o que eu poderia fazer).
Gritos no estacionamento. Uma negociação:"pega esse aqui que tá mais novo", uma voz feminina berra: "filho, vem aqui, sai dai!". Carros começam a ser ligados. Arrancadas? Barulhos de lata. Ruídos que parecem pequenas explosões: "é tiro!", disse a amiga no apartamento. "É assalto", conclui junto do carioca que conosco estava.
Nos fechamos em um quarto. Escondemos o dinheiro embaixo do sofá e apagamos do histórico do celular a ligação para a polícia. Passos nos corredores além da porta. Gritos vindo de fora. O telefone da portaria está ocupado. O apartamento das 'meninas', no bloco da frente, está com a tv ligada, e, aparentemente, com uma calma que no nosso espaço inexistia. Liguei lá. "Não ouvimos nada, se você descobrir o que é avisa a gente. Ai meu deus do céu!". Na parede do bloco, o reflexo de uma luz vermelha giratória.
Os passos nos corredores já haviam parado, os gritos também. Parecia que tudo havia acabado, mesmo sem sabermos ainda do que se tratava em si. Seu Luiz, o porteiro, finalmente atendeu o telefone. "Ah Gabriel, nada de mais, é que pegou fogo num carro ai no estacionamento, mas já tá tudo certo".
Voltei ao quarto fechado em que haviamos ficado trancafiados por opção:"assalto porra nenhuma, pegou fogo num carro. vamos lá ver".
Passado o nervosismo, rimos, repensamos nossa ausência de ação. Debochamos uns dos outros. As coisas ditas no momento de desespero, criado por uma interpretação errada das coisas, nos levou a um leve pavor de mais de meia hora. Culpa do Datena? Talvez.
Mas acho que fizemos o certo, frente ao pitoresco em uma estranha noite neste condomínio, que a cada dia que moramos, se torna mais aconchegante e familiar. (Pelo menos para mim, e apesar do susto).

Ps: custava gritar fogo para anunciar fogo? E não apenas dispendiar genéricos pedidos de socorro?

www.myspace.com/bielcoiso

Um comentário:

John disse...

O filme da elvira tava bem mais divertido do que essa paranóia.
Hoje eu descobri que o lixo do terreno ao lado é gerado pelos objetos de higiene pessoal que caem da janela dos nossos banheiros.