quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Da perspectiva à síntese.


Acordei e havia um ranço me prendendo à cama. Realmente me deitei acreditando que não iria acordar ou que o faria entre os escombros do estrago causado pelo tal meteoro que, ledo engano, era só uma falsa notícia para site mequetrefe receber acesso. Mas, levantei.
Não tenho emprego, não tenho dinheiro, não há perspectiva; toda e qualquer pequena oportunidade que sequer chega a se tornar lampejo de que "Vai dar certo" apaga antes de acender. "Ah, mas por que você não tenta fazer isso?", diz a cabeça, e a resposta sempre a mesma: "Já fiz". Então penso numa perspectiva realmente nova, viável. Falta aquele capital inicial - é triste que um grupo cretino de roqueiros ruins tenha esculhambado o uso desse termo no dia a dia.
Faz algumas semanas entendi o cerne todo do problema - sim, demoro para assimilar as coisas - e entendi que será inevitável mudar os rumos, os planos, as vontades outrora rascunhadas, ou em segredo rabiscadas. Não percebi, tudo foi sendo feito da maneira como devia fazer, e eu realmente não percebi que havia ali um "Plano de vida" em jogo. Talvez tenha percebido, não nego agora aqui, mas sempre neguei. Percebo que havia um plano de navegação e o quão à sério eu o tocava quando o barco ruiu e resta apenas esse oceano de falta de perspectivas - a clássica figura do sujeito ocidental que só valoriza as coisas quando não as tem.
Mas a gente sempre acaba levantando. O corpo pede um litro d'água, um café, um pedaço de pão.
Meu pai me lembrou que amanhã é meu aniversário, tinha combinado de ir à uma festa mas acho que não vai rolar, "Por que?", "Não tenho emprego, não tenho dinheiro, não tenho perspectiva, não tem muito o que comemorar, a gente deveria ter um habeas corpus para esquecerem do nosso aniversário em anos bosta assim". Não respondi isso, ele não gosta de festas, e o "Por que?" dele foi muito mais um "Ufa, vai ficar em casa", eu sei, tanto que não houve tréplica à minha resposta.
As pessoas vão me ligar, vão desejar "tudo de bom", vão mandar mensagens no Facebook, áudios no WhatsApp, vão me marcar em fotos no Instagram (nossos modos de nos relacionarmos socialmente mudaram rápido demais nos últimos cinco anos, não?). E vou fingir estar tudo bem, vou dizer que está tudo bem, vou agradecer pela atenção - em parte fico feliz por se lembrarem da minha existência, que seja por que o Facebook as falou, em parte fico triste por ter de me recordar desse cotidiano sem emprego, sem dinheiro, sem perspectiva. Como diz um conhecido mais virtual do que material, "Vem logo meteoro".

Olhe a metade cheia do copo. 

Tem uma voz que sempre diz isso. Sempre tem essa voz, e foi logo no primeiro café do dia que é véspera do meu aniversário este ano que ela foi soprada em meus ouvidos. Alguém citaria a Dóri, "Continue a nadar", mas sou mais Kobalsk, "Sorria e acene, apenas sorria e acene". As pessoas que eu sei que apoiaram o golpe, que votam incessantemente no maldito número 45, que foderam com a educação pública, que foderam com as perspectivas e os planos de navegação vão ligar, vão mandar mensagem, vão desejar "Tudo de bom", vão perguntar "Está aproveitando o seu dia?". 
A resposta é sorrir e acenar - em termos de telecomunicação, trata-se de responder "Sim, sim" com algum entusiasmo na voz ou alguma combinação de caracteres que indique alguma expressão de alegria no fim da mensagem "Sim =)". 

    Olhe a metade vazia do copo.

Mas, na verdade, tem uma voz que sempre diz isso. A voz da educação doméstica, a voz da educação pro capital. E bate aquela vontade de não sorrir nem acenar, e realmente imagino os diálogos com alta probabilidade de acertá-los - os nossos modos de comunicação mudaram, mas a presepada continua a mesma. 

-Está aproveitando seu dia?
-Não.
-Ah... Mas vai ter festa?
-Não.
-Nem um bolinho?
-Com que dinheiro?
-Ah, já já melhora.
-Não pelos próximos vinte anos.

Dezenas de frases óbvias e sentenças batidas martelam a cabeça. Ideias cretinas e vontades sinceras travam uma luta sem fim, acorrentadas a um ringue em que tudo depende dum emprego, dalgum dinheiro, nem tanto das perspectivas, mas eu as tinha, e chego, chegarei, chegaria (ainda está em tempo, viu Senhor Meteoro?) aos vinte e oito anos de vida - depois de mais de dez as nutrindo - com a tesoura em mãos para retalhá-las em nomes do que me pede o momento.

ESPAÇO DA 
DISCUSSÃO REVERSA 
DEPOIS DO 
FIM DO 
TEXTO

Ontem eu estava no ônibus e comecei a escrever uma ideia que me ocorreu enquanto eu andava pelo centro de São Paulo uma longa discussão mental mesmo daquelas de fazer esquecer que tem que descer do ônibus e pedir licença todo esbaforido pras pessoas se não perde o ponto. Uma reflexão densa que me levou de volta para 1998 passando por 2003 e 2007 e 2012 e 2013 lendo a vida de uma maneira linear com alguns pontos e poucas vírgulas uma história empírica de tirar o fôlego mesmo. Consumi seis folhas dum caderninho na escrita na autoargumentação para mim mesmo de momentos vividos (veja só) por mim mesmo embora em momentos tão díspares e já distantes da vida que realmente parece que era outra pessoa. Então chegou o momento de sintetizar a ideia toda e o fiz mentalmente quando ia a uma papelaria e retomei a ideia quando saí mas ela foi interrompida pois vi um cachorro perdido quase ser atropelado e a expressão de dor de duas garotas que viam o cachorro quase sendo atropelado e tal qual eu se viam sem ter o que fazer para evitá-lo - mas ele não foi atropelado pelo menos não ali diante dos nossos olhos o que suavizou o momento e o fim do dia (meu e das garotas suponho). Síntese. Conclusão. Fechar. Concluir. Acabar. Todo o sentido da ideia estava lá em minha cabeça era só escrever e materializar a ideia mas não tive coragem parecia que se passasse aquilo da cabeça pra mão pra caneta pro papel ocorreria a concretização de algo ruim embora na minha cabeça chegar a essas sínteses seja algo bom força motriz para mudanças necessárias. Tem um lance que me incomoda mas que me agrada ao recordar dos anos que listei no texto que todos eles foram períodos de transição entre períodos da vida sendo os "Períodos" demarcados por uma passagem entre um "O que eu fazia" para um "O que eu faço" sendo que me detive em descrever os períodos de "O que farei?". Momentos tensos de suspensão em geral momentos de ausência de dinheiro de perspectiva ou mesmo de ocupação (não diria emprego pois em poucos dos momentos listados havia emprego em jogo em geral estavam em voga mudanças nas coisas que seriam a minha principal ocupação nos dias). Sempre nesses momentos de síntese me vem a voz daquela canção que diz repetidamente que "É repetição é repetição é repetição é repetição é repetição" e também aquela outra que grita sem pudores "Repetição insignificante" o que é bom pois em tese eu saberia um pouco como agir guardadas as proporções e diferenças entre cada uma das situações e anos e ocupações e falta de dinheiro e de perspectivas. Mas não. Em geral sempre tem um período em que eu travo congelo fico sem saber o que fazer ou o que pensar ou como pensar e qual o próximo passo. A metáfora espontânea do cachorro perdido entre a rua e a calçada os carros e os ônibus e uma moto sem saber para onde ir dando passos curtos com suas quatro patas para não morrer foi perfeita. 

Síntese

Não consigo escrevê-la. Não consigo enfrentar-me. Não temo o tempo, temo a falta dele. Vinte e oito anos, a parte mais adulta deles dedicada a algo que me olho no espelho e me reconheço altivo, mas que não paga meio litro de caldo de cana. Na minha profissão, que também é a parte mais significativa das coisas que construí na vida (tento negar, mas é impossível) as melhores sínteses não são as que afirmam algo categoricamente, mas sim as que geram mais interrogações. Seguir com o que amo, ou ceder ao que preciso? 



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O meu retrato do Golpe - IV.


O show estava marcado para as 19h30, mas começaria apenas às 20h ou 20h30. Dia de semana, dia chuvoso, embora se tratasse de uma cidade pequena, esses três pontos entrecruzados fariam diferença para facilitar a chegada das pessoas que formariam o público: começando no horário agendado, muitos teriam que ir direto do trabalho após tomar chuva, sem um tempo para um banho ou um lanche em casa. Naquela noite fiquei responsável por cuidar da mesa com produtos alusivos a banda e à minha própria arte - a famosa "banquinha". Arrumei tudo, e às 19h45 voltei para o bar onde estava o pessoal, um e outro membro da banda e muitos dos amigos que prestigiariam o show. 
Estava na rua, do lado de fora do bar - embora ele tenha toda a frente aberta, e a distância entre o "dentro" e o "fora" seja extremamente tênue - junto de outro rapaz, analisávamos uma árvore que nascera na lateral do topo do prédio onde ocorreria o show. Discutíamos como era possível nascer uma árvore em uma rachadura na parede do prédio: de onde veio a semente? Onde achou terra? Teria sido germinada entre tijolos de barro?  
Enquanto conversávamos, vimos sair do prédio, em passos largos, um dos rapazes da banda. Com um riso espantado veio andando na direção do bar. "É guerra, é guerra!", falou repetidamente. Eu estava sem bateria no celular, e não sabia do que se tratava, ele explicou: "o avião em que estava o Teori Zavascki acabou de cair, e amanhã ele ia homologar a delação da Odebrecht". 
A árvore no topo do prédio, o pessoal no bar (antes e depois do show),os passos largos e a fala do meu amigo, configuram mais um dos "Retratos do Golpe" que guardo na memória.





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - III


Combinei comigo mesmo de não beber essa semana. Aliás, na semana passada também havia o feito, e o combinado foi por terra na quarta-feira (feriado em São Paulo, dia quente, Corinthians campeão da Copinha, pedalar com ela etc). Os últimos dois finais de semana, por alguma graça de algum "destino", foram avalanches. Avassaladores. Destruição. Se meus órgãos fossem burgueses frequentadores de Copacabana diriam que o que ocorreu foram "Arrastões", e os pertences levados o foram por substâncias sumariamente líquidas. Faz nove anos que penso sobre isso tudo. Nove anos é tempo. Embora tempo seja matéria não palpável (portanto, "não matéria"), tenho pensado que entendi o que são dez anos, ou o que podem ser dez anos, ou mesmo 'vir a ser' dez anos. Me parece que entendi um pouco a cadência do samba do tempo - o que pode ser mutável de acordo com as temporalidades, situações etc: nada mais será o mesmo para nós que crescemos em um Brasil democrático e com alguma "segurança social", será que nossas percepções de tempo mudarão? Creio que sim, a própria fluidez e experimentação empírica do tempo mudarão.
Passaram-se três anos já. Hoje. Amanhã. Por aí. Faz três anos que abaixei para fazer cocô no mato e perdi uma câmera - não é de hoje maltrato este corpo, vejam só. E então apareceu na internet uma foto duma garrafa de cerveja em cima do balcão do bar. "Puta merda, eu nunca vou sarar dessas saudades?". Doeu. Bateu forte no peito. Tanto a imagem da garrafa (uma breja cairia bem hoje, dia quente), quanto a imagem da garrafa no balcão do bar. Um amplificou o outro e eu saí da internet com o coração doendo.
Às vezes demoro para entender quando uma situação muda. Demoro para articular os pontos que a compõem e entender que talvez as coisas tenham mudado minima ou drasticamente. Quando tinha quinze anos trocava beijos e carinhos com uma garota e subitamente paramos de nos ver, quando nos encontramos dois meses depois achei que nos beijaríamos e acariciaríamos. Não entendi que "as coisas" haviam mudado e a situação era outra. Alguns anos atrás - um chute bem qualificado diria que isso faz entre cinco e seis, e é verdade - tracei alguns planos, aos trancos e barrancos dá para dizer que concluí alguns, dá para dizer que outros estão em vista ainda e dá para dizer que tem alguns que sequer me lembro. Muitas situações mudaram, e as balas mais recentes acopladas à agulha, confesso que ainda não entendi como realocar ou utilizar. Ou mesmo em que ou quem devo atirar essas balas. 
Não nego que às vezes bate um desespero, as saudades de hoje foram isso, sem dúvidas. Não há piso firme para seguir com os passos que havia planejado, parece não haver terra fértil para fazer com que as sementinhas anotadas em caderninhos se tornem "projetos", tampouco sinto que haverá possibilidades próximas para um passo adiante nessa ou noutra direção (em terra fértil ou não, atrelada aos projetos ou não). Parece não haver nada de novo no horizonte, ou mesmo horizonte, e a única perspectiva plausível é voltar para aquilo que sei é 'irretornável'. Os meus retratos de alguma breve segurança. Passar por debaixo da porta entreaberta e quando verem que sou eu dissiparem os rostos de tensão ante passos até então desconhecidos. Bater na porta e dizer "É o Coiso", e a abrirem sorrindo para mim. Voltar a procurar a câmera que eu perdi no mato; isso não. Confesso que ao modo dum filme ruim, bate às vezes um desespero e uma vontade de começar algo que não seja assim tão novo e que vá se tornar assim tão velho e respirar fundo e dizer: "esse é o primeiro dia do resto das nossas vidas", e o símbolo disso é a segurança do local, da cidade (embora, muito possivelmente, não vá se tratar 100% da situação que vivi e da qual sinto saudades, as situações mudam, Gabriel) - ou mesmo acreditar nessa ideia de "resto das nossas vidas" ou mesmo (aproveito a onda do assunto) esvaziar os meus bolsos da noção de progresso que como pedras me fizeram afundar. Bate um desespero, mas eu sei que ele não corresponde à realidade; aliás, sei que ele é produto da realidade mais próxima, o presente comprimido, o período de estagnação, projetos interrompidos, intervalos, chamem como quiser, mas não diz respeito à realidade mais ampla. Uma avalanche de coisas que precisam rolar mas que empacam em um e outro pedregulho que de tão insignificantes poderiam ser chamados de "peideigrulhos". 
Mas só consegui entender isso tudo ao romper novamente com o combinado que havia feito com meu corpo, pegar uma bebida e pensar nisso tudo concentrado em alguma outra coisa qualquer. 


domingo, 29 de janeiro de 2017

Fábulas de domingos.


Ela saiu cedo para trabalhar, e, por se tratar de domingo, o simples fato de ter que ir trabalhar já amplifica a noção de "cedo" - digo, independente da hora que você for trabalhar em um domingo, será cedo, pois existe uma fábula que diz que domingo não é dia 'para' trabalho, tampouco 'de' trabalho. Alguns segundos antes de sair pedi para deixar um cigarro: "só um?", "só". Não sei por que o guardei em uma lata de lápis de cor. Voltei para casa após acompanhá-la até o ônibus, peguei o cigarro, um café e sentei no quintal. De certa forma assisti o nascer do sol - a cada gole & trago um prédio que rasga o céu na rua de trás ficava mais claro e iluminado - com a frase "vou fumar esse café assistindo o caos passar" na cabeça. Digo, sentar no quintal e pensar no caos recente: dívidas, desemprego, alcoolismo, tristeza, perspectivas. Os Titãs falam lá que os cigarros não guardam nem cinco minutos, mas depende. O tempo é fluído, subjetivo e situacional. O café que eu fumei durou muito mais (às vezes o Samu demora para chegar ao local dum atropelamento). Quando os acabei o céu já estava bem mais claro do que quando me sentei, e a cabeça fervilhava. "Não tem como deixar o caos passar, ou tirar uma pausa dele, quando ele está na pele, é uma crosta que nos recobre e um creme que nos recheia". 

"Era para estar muito melhor de vida a essa altura".

Clichê desmotivacional comum, desamparo casual, lamentação habitual aos sujeitos de um sistema que não tem como, por onde e/ou interesse em que a maioria (ou mesmo algo além de uma minoria) estejam "melhor de vida" ou "melhor na vida". Para que meia dúzia descanse no domingo, conforme a fábula, é necessário que duas dúzias se levantem cedo no domingo. "Ah por que domingo é dia de acordar cedinho e ir na padaria comprar pão e tomar um café no balcão conversando com conhecidos e passar na banca e comprar o jornal e chegar em casa e ler o jornal comendo pão e tomando café". Ladainha burguesa: teve quem levantou mais cedo ainda para preparar o pão, outro para passar o café, tem quem está no caixa da padaria, tem a rapaziada que separa os jornais, a que entrega os jornais e a que vende os jornais para o consumidor final - as linhas dessa teia parecem intermináveis. "Devia ter aceitado a ideia de ficar com mais de um cigarro, e não sei por que estou me entupindo de café, se já já vou voltar a dormir". Me entupi de café pois ainda havia café, e eu não queria jogar fora, em respeito aos que colhem café: jamais me esquecerei daqueles rostos infantis que me contavam detalhes da jornada de trabalho e dos valores pagos pela mão de obra para a colheita do café em Vera Cruz/SP: "Fessôr, paga quinze reais na saca do café catado", "quanto tem numa saca?", "uns sessenta quilos", "e quanto tempo leva pra catar uma saca?", "em dois faz em um dia, que nem, meu pai e minha mãe catam uma saca por dia"; e quando é época da colheita bruta, o dia é mais longo, a semana é composta apenas por segundas-feiras (domingo é 'risos'), os filhos mais velhos (aqueles rostos infantis não combinavam com as marcas nas mãos) faltam às aulas para ajudar a colher duas sacas por dia.  

"Era para estar muito melhor de vida a essa altura".

Não desejava nem esperava chegar a essa idade com outra mentalidade. "Você já tem vinte e oito anos, não pode ficar falando sobre cocô desse jeito", "a maioria das pessoas da minha faixa etária e do recorte socioeconômico de que supostamente faço parte ou sou um recorte não fala sobre cocô, mas acredita na meritocracia, no mito do sacrifício da própria vida em nome das conquistas, nas fábulas do capital, o que, de certa forma, é tocar-se na vida tal qual um cocô". Mas também confesso que não esperava e tampouco desejava acordar cedo em um domingo e ser assombrado, sobretudo ao nascer do sol, pelo caos das dívidas, do desemprego, do alcoolismo, das tristezas, e da total falta de perspectivas para o futuro próximo (ou presente). Confesso que lavei a louça com a ideia de que levantar cedo para trabalhar no domingo seria melhor do que levantar tarde na segunda e respirar angustiado pela falta da ocupação pragmática e d'alguma realização, breve ocupação remunerada do tempo, que permite utilizar o outro um quarto de tempo que sobra para o que é verdadeiramente sincero por ser feito (como acordarei amanhã)

Escrevi esse texto com o gosto do café definhando na boca e pensando que embora exista aí um presente que se desenha com cores podres em papel manchado e traços toscos há uma inegável crença de que vivo e sinto (noutro departamento) o que sempre desejei viver e sentir mas que nunca achei que fosse viver e sentir. O gosto do café e da nicotina definhando na boca não foram suficientes para aplacar a lembrança e o sabor do beijo que ela me deu antes de subir no ônibus (metonímia concreta de um sabor que se dissolve no nosso tempo) e nesse aspecto não haveria como estar melhor 'de' e 'na' vida a essa ou a qualquer altura. Realmente chegou um momento que eu acreditei que isso só ocorria nas fábulas.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Teoria Geral do Estacionamento SócioTemporal.


Fui fazer uma pipoca para matar o tempo (e tapear a fome) enquanto esperava uma tinta secar. Pipocas estouradas, tinta ainda levemente úmida, coloquei um antigo álbum do Yann Tiersen pra tocar. Trilha sonora do "Adeus Lênin", junto com a da Amelie, uma das principais portas de entrada de muita gente no universo musical do cara. Comia pipocas e ouvia as notas, as composições, a linearidade, o minimalismo, os arranjos fabulosos...
Foi em 2008 que esse álbum (e esse filme) muito me marcaram. Em 2008 dividi apartamento, namorei, ingressei na universidade, me mudei para Marília. Diversas noites desse ano foram vividas juntas de pessoas que garantiram a ele ser um contexto sóciotemporal: comíamos pipocas, ouvíamos álbuns antigos do Tiersen e jogávamos War. A maioria dos meus colegas de curso/turma desenvolvia outras funções, menos, digamos, caretas.
2008. 
Tem a marca dum ano num amontoado de lembranças que me remetem a realizações específicas, pessoas específicas, locais, e, obviamente, acontecimentos. Mas, gostaria de ressaltar, a uma rotina: cada rotina envolve contextos específicos. E depois, rotina e contextos foram diferentes - tanto entre si quanto em relação - em 2009, 10, 11, 12, 13, 14, 15 e 16. 
A rotina e os contextos sempre estão mudando para mim. Na época da faculdade, por que cada ano era um ano; aliás, cada semestre era um semestre, isso acrescido das demais tantas variações que tinha o dia-a-dia para além da faculdade a cada período.
Todos os anos foram diferentes entre si, ainda não houve um ano igual ao outro, ou algo próximo disso desde, sei lá - vamos manter esse recorte - desde que "comecei a faculdade". 
Teve um momento no ano passado em que entendi que cheguei próximo, nesse vendaval temporal todo, de ter uma "rotina adulta", lá por 2013, entendi e assumi a falta que sinto daquilo - talvez seja essa falta, nesta segunda-feira, que me trouxe a esta reflexão.

Espera aí. E o Yann Tiersen? E 2008? E esse "estacionamento" no título?
Calma brother.

Fico pensando que se tivesse estacionado a minha vida, por exemplo, nas tarefas daquele 2013, elas não seriam "tarefas de 2013", mas sim "tarefas da minha vida" e, de certa forma, eu ainda estaria em 2013 - com pequenas sutilezas, claro, mas o recheio central da vida (a rotina, o cotidiano) seriam aqueles, iniciados em 2013, daí, questiono: eu "estaria em 2013" ou "2013 estaria em mim"? Ou, ainda, o recorte por anos se torna desprezível/insuficiente quando se lida com as tarefas da tal "vida adulta"?
A tinta já deve ter secado há um tempão, a pipoca já acabou, eu já estou com fome de novo, o álbum já está acabando. Mas tem uma coisa por ser dita ainda. 
Deve ser trágico estacionar a sua vida num ano, num pequeno grupo de realizações, pessoas, locais e hábitos, de modo que os anos passem a ser dissolvidos nas realizações mais do que experimentada no espaço tempo. Talvez seja por isso que a rapaziada que mora há anos na mesma casa, nunca se mudou de cidade e está há um tempo considerável em um mesmo emprego, tem dificuldades para separar acontecimentos conforme os anos - algo que tenho certa facilidade, pois relaciono acontecimentos com, por exemplo, a casa em que morava, a realização principal em que eu aproveitava o meu tempo vivo, a cidade em que residia, pessoas que estavam mais próximas.
Enfim, eu poderia ter estacionado em 2008, e ouvir só esse artista, e apenas jogar War em meu tempo de lazer, e conviver só com as mesmas pessoas. Mas, para mim, isso seria um desperdício desgraçado de vida.

O texto acaba ali em cima, mas eu quero escrever mais um longo parágrafo.
Vá em frente.

Em geral vejo com prestígio pessoas que não depositaram a vida nesse "Contexto de mesmisse e repetição" - "o mesmo trabalho, a mesma rotina, os mesmos lugares, as mesmas pessoas". Criando uma espécie de dualidade, vou puxar o "Tipo ideal burocrático contemporâneo", da pessoa que trabalha em escritório - às vezes vejo aquela massa de homens engravatados e mulheres 'ensaiadas' caminhando na Avenida Paulista na hora do almoço, ou entupindo os corredores das estações de metrô na região central às 18h30 - para pensar nisso. São oito horas por dia na frente do computador, cerca de quatro ou três horas para ir trabalhar e voltar para casa. As 48 horas dos finais de semana (quando não se trabalha por "meio período" no sábado) são capturadas à procura de alguma exceção na rotina: uma chapação, horas a fio em sono, arrumar a casa, transar com desconhecidos, brigar na rua, visitar parentes, comer algo realmente gostoso etc. Penso que, em uma semana, não são as 48 horas do sábado e do domingo que são capturadas, mas sim as 120 dos "Dias úteis". Retomo o recorte temporal dos anos. Daí que a pessoa está a sete anos nesta rotina, com um mês de férias pessoais e sete dias de férias coletivas entre o natal e o ano novo. Ah, o ano novo. A festa de reveion (ou "Reveillon"), esse brevíssimo ritual que marca a "Passagem de ano", período em que os custos de tudo que envolva uma viagem se encarece ou se satura - as passagens rodoviárias não tem o preço alterado, porém, as rodoviárias lotam, os ônibus atrasam. Todos querem viajar, ir para algum lugar com determinadas pessoas, fazer determinadas coisas a fim de "Passar o ano", isto é, marcar que acabou um período e começou outro, e aquelas "férias", aquela viagem ou aquele encontro (no caso em que não se viaja, se fica na própria cidade em que mora e trabalha, mas se participa de algum evento incomum à rotina, se come algo incomum à rotina, se vê pessoas incomuns à rotina) marcam, de fato, que "mudamos de ano". O ritual é necessário, pois, se for depender de "marcar os anos" com base no que se realizou neles, ficaria difícil diferenciar, pois a rotina, o trabalho, as pessoas etc foram os mesmos em 2014, 15, 16... O ano não é um contexto sóciotemporal, não pode ser marcado enquanto tal, visto que o contexto é a própria vida, vivida enquanto rotina e dissolvida 'ao longo dos anos'. Daí ser relevante, para além dos rituais de marcação do tempo, um ano em que ocorreu algo de diferenciado, como, por exemplo, "o ano em que fiquei desempregado". É louco ver como as pessoas que seguem a rotina da "mesmisse e repetição" pegam no pé das pessoas que se recusam a ela, e, muitas vezes, utilizam como argumento os "confortos" que tal rotina lhes proporciona - uma aposentadoria privada, uma viagem deslumbrante de quatro dias entre 28 de Dezembro e 2 de Janeiro, trezentos canais na televisão de setenta polegadas, um carro para perder duas horas em vez de três indo para o trabalho - no entanto, estas próprias pessoas tem as lembranças e vivências dissolvidas em um tempo incerto, incalculável em si, quase fúnebre, ao passo que, os que se apegam à não-rotina da "experimentação e novidade" (espécie de polar oposto de "mesmisse e repetição") mantém calendários de realizações em seus anos e mentes, encontrando conforto mais nas pequenas vivências novas e caminhos diferentes do que numa poltrona reclinável (mas não nego que a poltrona é confortável, me parece, por fim, que o ideal para esta Teoria Geral do Estacionamento Indivíduo-Social fosse conciliar o acesso a bens confortáveis com aproveitamento pleno do tempo e do espaço [o mundo é finito, o tempo pessoal também, mas o social não] mas isso não ocorrerá no capitalismo tal qual ele nos é apresentado: as pessoas precisam trabalhar em escritórios para terem o que comer e onde morar). Um grande desperdício de potencialidades.

Mais alguma coisa?
Não não, só isso mesmo.
Certo.


Desculpa, tem mais coisa sim.
Oh meu deus, escreve aí então.

Um ponto interessante sobre isso, nesse jogo entre "Tipos ideais", é que é comum você ver o pessoal que faz dívida para comprar a poltrona reclinável para descansar dos dias de trabalho nela mesmo que para pagá-la precise trabalhar mais e cansar mais, dizer que os outros (essa alteridade é sempre um joguinho curioso, sobretudo quando brinco com uma dualidade tão ácida, obtusa e ultrapassada, assentada em "Tipos ideais"), aqueles que optaram por estilos de vida menos associados/acorrentados à lógica do escritório, do capital como único recurso e/ou de seguir uma rotina fixa e imutável, "pararam no tempo". É comum que, de dentro de seus apartamentos, apontem o dedo para aqueles que ainda moram com os pais, aqueles que tem uma banda que nunca fez sucesso há 15 anos, aqueles que já passaram dos trinta e que convivem com grupos de jovens, aqueles que não ligam por estarem mal vestidos. Os contextos sóciotemporais, nesse caso, não necessariamente são conflituosos, no sentido em que, alguém da primeira rapaziada pode ter uma banda que não faz sucesso, no entanto, se ela se apega a alguns símbolos deste estilo de vida, é possível que isso seja aceitável. Chegamos, então, a outro ponto nesta teoria: "Gradações de Dedicação Sóciotemporal", em que o 'depende' se torna uma ferramenta de amplo manejo pelos sujeitos. Mas não quero falar disso, deixa o dito pelo não dito e outro dia retomamos.

Sério bicho? Você me faz retomar o texto para desenvolver uma ideia pela metade e deixar para outro dia?
Ah, sim, às vezes é necessário dar tempo para amadurecer as ideias.
Ah, vai dormir.
Vou mermo.