domingo, 8 de outubro de 2017

Observação sobre a morte.


"Atividades de risco" em geral são aquelas que oferecem ao corpo a possibilidade de terminar em maus lençóis. Isto é, que podem causar ferimentos, que podem causar lesões de diferentes graus e, em última instância, podem levar à morte do corpo. Pular de bung jump, pilotar um carro de fórmula um sem os devidos conhecimentos, atravessar a marginal tietê à pé, comer porcarias na rua. Você pode comer dezenas de torresmos e ovos cozidos rosas em botecos e sobreviver. Você pode atravessar as pistas da marginal pinheiros vinte vezes e não ser atropelado em nenhuma delas (se tiver perícia no movimento). Você pode jogar o carro de fórmula um para cima do oponente e sair ileso, caminhando. Mas você pode bater com as dez fazendo algo usual, cotidiano, aparentemente sem riscos, sem radicalidades algumas que sejam, como trocar uma lâmpada em casa se bater a cabeça em uma parede dura, em uma angulação específica e com uma força específica. A morte, me parece, não é uma questão de probabilidades em si, mas antes, de uma intensidade tão insuportável pelo corpo que este para, sucumbe. Nenhuma diferença entre o que outrora foi "Alguém" e uma tora de jatobá cortada caindo na lama, uma insignificante (ou espirituosa) formiga amassada ao chão. Estar atento às intensidades das dores e resmungos das engrenagens deste corpo metáfora máquina é importante.



sábado, 30 de setembro de 2017

Espaço Seleto.


Agência gold, conta especial, cartão cromado. Gerente exclusivo, "30 horas à sua disposição". Cafezinho em porcelaninha direto da maquininha de capsulazinha. "Vale cada centavo... não que eu me preocupe com cada centavo, ou com centavos, meu pensamento segue uma lógica menos reducionista, não caio em armadilhas da prática teórica, ocorre que me preocupo apenas com os grandes cânones na verdade, minhas contas começam quando vejo que há cinco dígitos envolvidos. Costumo mais olhar ao redor mesmo, selecionar uma conduta moral lisa, nada de pisar fora das linhas que eu desenhei". Porta automática, porta giratória, seguranças armados, discrição, carro forte. "Temos um leitor de córnea para lhe dar a segurança de que apenas você terá acesso aos seus valores". Mas o espaço, é seleto - ou você acha que é qualquer batata, cenoura, milho ou ervilha que entra na latinha? Espaço seletíssimo! Mas eis que, rapaziada bacana, arregaçam as mangas, usam todas as engrenagens cerebrais, quilos e quilos de papéis, para colocar em suspenso a legitimidade desses espaços. Cavocam mais fundo: verdadeiros vocábulos sobre tudo o que está errado, proposições sutilmente notáveis (frequentemente incompreensíveis). "Está errado ter espaço seleto assim desse jeito pode não chama uma rapaziada aí pra gente resolver essa questão". "Pode não". "Por que?", "Então, entende, o espaço aqui é meio restrito, não pode ser pra todo mundo sabentende?", "Ah sim, claro, como não. Se for pra todo mundo assim vulgariza o assunto. Com certeza. Está certo. Afinal não dá pra pisar fora da linha nénão?". 

 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Da nostalgia ao caos.


Salgadinho em cor de amarelo escuro/marrom claro que é massa de milho em formato circular com um furo no meio e sabor artificial de bacon em pacote de papel laminado pequeno na largura e desproporcionalmente grande na altura. Eu sei que ao ler o parágrafo acima você visualizou o pacote de salgadinhos a que estou me referindo. Talvez você tenha até sentido em sua boca o sabor artificial do bacon, o triturar duro de seus dentes contra as pequenas argolinhas salgadas. Talvez tenha até sentido na língua a textura do pozinho que dá o tempero artificial ao quitute. Talvez tenha se lembrado de alguma situação específica em que comeu este petisco - talvez a única, talvez imagine de que sabor estou falando. Olhei-o na prateleira do mercado e salivei. s a l i v e i. Salivei por meio de meu cérebro, meu corpo, minhas memórias, alguma sensação pitoresca e quixotesca (tamanho a desventura do sabor de lembrança que me corroeu). Era dois mil e oito e por alguma razão quando ia de Marília para São Paulo não pegava, no terminal central, o ônibus direto para a rodoviária, mas sim um que me deixava próximo dela e mais próximo ainda de um mercado onde, em geral, quase sempre, eu comprava esse salgadinho para degustar ao longo da viagem. Depois de comprar o salgadinho ia andando até a rodoviária. Olhá-lo na prateleira hoje foi como tomar um raio na cabeça em praia de faixa de areia larga em tarde de chuva tenebrosa. Em uma das vezes, não me recordo ao certo qual, mas devo ter isso anotado em algum caderninho do ano, fui comendo o salgadinho contando argolinha por argolinha, o intuito era o de registrar quantas argolinhas vinham no pacote. É evidente que não me recordo do número. Porém, no tédio da estrada - do ônibus que era sempre frio, que sempre tinha som ambiente de roncos, às vezes transmitia filmes nos televisores anexados no topo dos bagageiros internos, da parada em uma loja de conveniências de altos preços mas de vários encontros pois muitos estudantes viajavam nestes ônibus frequentemente no mesmo horário - fui contando, argolinha por argolinha, e depois, tendo um número total de argolinhas, o dividi pela quantidade de gramas do pacote, e fiz diversas outras contas a partir daquele número. Eu nem curto matemática, mas depois vou procurar esse caderninho. Nunca na minha vida quero esquecer das sensações daqueles dias. As noites em claro achando que seria boa ideia pegar o ônibus das 23h59 para chegar às 5h30 em Marília e ir direto para a aula na segunda-feira. As tardes após a aula nas sextas-feiras voltando por conta de algum feriado ou evento do final de semana. As manhãs após passar a noite em claro em casa pois já havia percebido que passar a madrugada acordado no ônibus era menos rentável do que passá-la desperto em casa e, posteriormente, por toda a manhã, dormir no ônibus (e acordar na altura de Bauru, às vezes até mesmo Garça, e ver aquele infinito de plantações de café em verde transgênico ao redor do ônibus; ou mesmo da época em que Bauru, Garça e Vera Cruz eram nomes apenas de paradas do ônibus, e não locais em si, que conheci, andei, vivi). As madrugadas em que, é, não teve jeito, tive de passar desperto no ônibus para chegar em Vera Cruz na segunda ou terça-feira cedíssimo para dar a primeira aula na escola - não quero esquecer nem da madrugada em que fui acordado já na rodoviária de Marília, antes do ônibus ir para a garagem após perder no sono (e ajudar a compor o som ambiente de ronco) e perder a parada em Vera Cruz; tampouco da manhã no tão longínquo dois mil e nove (de desventuras amorosas e amizadinosas ao desbravar o Jardim Marília e o Alto Cafezal), em que o motor do ônibus quebrou em algum ponto entre Bauru e Marília, e nós, passageiros, permanecemos por quase duas horas ali, na beira da estrada, esperando que a resolução do problema viesse sob a forma de mecânicos e um ônibus vazio. Não quero nunca esquecer destas sensações, destes momentos, daquelas apreensões, tensões, explosões, desejos, viagens, tardes, manhãs, noites, madrugadas. Não quero, e não posso: todos esses sentimentos compõem a minha humanidade, e foi ali que conheci e experimentei muitos deles.

 

domingo, 20 de agosto de 2017

Adubo. Adulto. Beijo.


Entendi que quando se opta por viver partes da vida entre locais distintos, os trânsitos geográficos e temporais se tornam referenciais distintos: de épocas, de pessoas, de locais, de idade etc. Elementos diversos que se encontram e se afastam com o caminhar inevitável do tempo, se você está transitando entre locais então, fica mais fácil ainda de demarcar a relação "Época x Local". Por exemplo: em 2011 morava em um apartamento em Marília, o primeiro semestre junto do Manolos, o segundo sozinho; o primeiro semestre foi a segunda metade em um período de um ano sem beber, foi a época em que comecei a me movimentar artística e coletivamente junto de outrxs, conheci gente nova. Foi uma época de movimentação muito interessante. 
No entanto, esta época, enquanto cruzamento de vários fatores, passou, entrou para a história das vidas. Tanto por conta dos distintos rumos tomados pelas pessoas, quanto pelo fim da existência de alguns espaços, e, falo por mim, pois dali vim pra cá (mudei as geografias de minha vida) e estou prestes a realizar outra dessas mudanças. 
Ocorre que, em razão de toda a sobreposição que há entre tudo o que se viveu - o que somos hoje é produto de aceitações e negações do que fomos, vivemos outrora - aquela geografia, aquele contexto soam tão distantes. Seis anos avoados. E o que assustou-me em pleno amanhecer de domingo é que naquele contexto eu já era adulto. 
Nas lembranças que já considero como antigas, eu já era considerado adulto, já me via desta maneira. Isso foi adubo, alocado na superfície do cérebro para esvoaçar pensamentos por todo um dia.
Não que seja uma surpresa, longe disso, mas... interrompi a escrita, "Qual o problema em se perceber a si mesmo em distintos microcontextos dentro de um contexto maior?". Desci a rua para ir até o caixa eletrônico ver se o salário havia caído, e a questão se elucidou em minha cabeça - já o que fui ver propriamente, bom, voltei para casa sem comer churros.
Sem pressa alguma, o que envolveu estacionar por alguns segundos em frente a um colégio, assisti os jovens saindo de mais uma tarde de aula. Atrás de um orelhão, uma garota e um garoto conversavam com risos e proximidade nos rostos, a poucos metros, três ou quatro meninas assistiam a cena.
"Vai logo Larissa", "Beija ele Larissa", "Larissa, a gente tem que estar em casa até as sete e vinte, anda logo!", foram algumas das frases que ouvi, e que foram suficientes para catapultar-me no tempo e nas sensações - era dia dos namorados.
Ainda me recordo de quando este tipo de tensão pegava-me pelos cabelos. Eu e uma jovem em um pequeno pedaço de chão (talvez dois metros quadrados) atrás da quadra descoberta do colégio, enquanto as amigas vigiavam para ver se vinha algum inspetor, alguma professora. "Vai logo Gabriel", "Anda logo Fulana". 
Ao entender a cena em que estava envolvida a Larissa, entendi parte da questão - ou acho que entendi. 
Me parece comum encararmos com certa "Irrelevância", "Descrédito" ou mesmo "Desdém", vivências de nossa juventude, como fossem questões menores em nossa vida. Como fossem meras passagens para o maravilhoso mundo de realizações e conquistas adultas - em que você sua sem poupar-se para trabalhar, mas o quilo de sal perde o ônibus, e se atrasa. 
Recordei-me da tensão, do sentimento, do "Selinho" que foi interrompido pois um inspetor surgiu na escada. Ponderei: se tornou tão comum em minha vida trocar beijos, que a tensão, a pressa, as estratégias para tal se perderam naqueles tempos de proibições sobre os desejos - talvez tidos como "Precoces" pelos proibidores.
Naquela época eu imaginava que num futuro distante eu beijaria bastante e sem maiores impedimentos, mas não conseguia visualizar essa possibilidade, pois tudo era novo. As mãos suadas, o corpo trêmulo ante o desconhecido - lembro de quando me disseram, na quinta série, que para beijar se usava a língua e fiquei em choque.
Hoje em dia consigo visualizar muito do que ainda está por vir, pois, parece-me, entendi o assunto da linearidade da vida - a qual, parece, não deverá mudar muito conforme as variações geográficas e contextuais que ainda estão por vir, não que eu não espere mais ser surpreendido. Consigo planejar, consigo visualizar, as perspectivas são (quase) palpáveis e muito concretas pois, em meus exercícios de planejamentos, dialogo com o que já é conhecido; o que já foi vivido lança luzes que ajudam a iluminar o futuro - e esse é um dos incalculáveis valores de se estudar história e, num linguajar psicanalítico, "Se autoconhecer". 
Como o ato de beijar, dissipado das tensões e das proibições, tornou-se ato recorrente, cotidiano. O que assusta, no entanto - e talvez isso ocorra por não ver com desdém nenhuma dessas épocas - é certificar-me de que "Caramba, já tem tanto 'tanto tempo' corrido nessa vida, que mal posso esperar pelos próximos tantos".
Assim como mal posso esperar pelo fechamento obviamente clichê deste texto, mas, igualmente, evidentemente repleto de sentido: "Já morei em tanta casa que nem me lembro mais".

Entendendo diferenças [Ou "bastante"].

Ao sair do Maktub no domingo a tarde (20/08) em que saí de casa para espairecer sobre as tretas do mundo ao dar um gole numa bavaria gelada e ouvindo Explosions entendi a sutil/ampla diferença entre Querer morrer fazendo algo que se gosta bastante e Viver bastante para fazer bastante algo de que se gosta bastante
Depois, mais para a frente na avenida, ao me incomodar com a altura do som, o abaixei, e pensei que Entendi a diferença entre querer ficar surdo ouvindo uma banda que se gosta bastante e Querer preservar os ouvidos para ouvi-la por muito tempo.
Entendi várias diferenças de aproveitamentos vido-temporais, e entendi de qual parte quero participar: da que vive bastante para fazer bastante as coisas de que se gosta bastante pois não tem nada mais legal do que fazer bastante as coisas de que a gente gosta bastante.