quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Obrigado!


Ver e escrever. O meu trabalho é ver e escrever. O meu lazer é ver e escrever. Pensamentos transitam entre si, o lazer e o trabalho. Confundem-se, discutem, dialogam e, em geral, suspendem qualquer divisão entre "trabalho" e "lazer": se fundem. Comecei a escrever um texto por dia como forma de registrar o pouco tempo livre para ver e escrever sobre demais tópicos, que não os meus estritamente profissionais. A coisa fluiu e inventei de lançá-los como livro. Notei que havia outras criações por compartilhar junto dos textos: fotos, músicas, traços. Esse curto parágrafo é para agradecer a todxs vocês que, assim como eu, viram alguma fluidez ou valor ou graça nisso tudo, e dedicaram um tempo e algum dinheiro de seus dias para que eu pudesse colocar essa ideia no papel. 
Muito obrigado & um brinde:
Jéssica Lima, Deusa Oliveira Alves, Elisa Moreira Leite Carneiro, Elen Cristina Bressiano, Marielli Bimbatti Mazzochi, Nadav Peretz, Régis Zangirolami, Camila de Freitas Nogueira, Raphael de Araújo Silva, Gustavo Berbel, Marcelo Gishitomi Barbieri, Eder dos Santos, Gilberto Rossi Jr., Rita Luciana Berti Bredariolli, Guilherme Garboso, Renata Silva Souza, Thiago Bispo, Ítalo Sanchez de Carvalho, Gabriel Leal, Eduardo Mussi, Danton Favaretto, Giancarlo Marques Carraro Machado, Tiago Damaceno, Eduardo Caetano Borges de Assis, Hiro Ishikawa, Luana Padovan, Thania Albernaz, Eliana Rímoli Alves, Cau Silva, Luana Andrea Favoretto, Luisa Brandt Figueiredo, André Vilé, Elizabete Cabrera, Lina Moreira Monteiro Bocchi, Sérgio Luiz Bazzanella Filho, Athos de Melo Araújo, Zeca Ruas, Lucineia Ferreira da Silva, Fabiano Benetton, Paulo Cezar Cury Seara.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Então, eu cruzo a cidade...


De ontem para hoje deu uma esfriada brava, percebi logo que acordei. Fiz o que tinha para fazer em casa e a rua me chamou. "Vento frio", pensei ao senti-lo bater firme em meu rosto no instante em que coloquei a bicicleta na calçada - impossível não me recordar de todos aqueles Julhos em que o vento frio nunca foi adversidade para nada que queria fazer pelas ruas, fosse pedalar, fosse amar, fosse perder. 
Gosto de pedalar e decidir o caminho enquanto pedalo; "cruzo o centro ou vou pela Avenida Pacaembu? Chego na Paulista pela Vergueiro ou pela Angélica?". Quando notei, respondi acidentalmente à pergunta ao optar seguir por debaixo do Minhocão, não notei que virei à esquerda na Avenida General Olímpio da Silveira - vulgo "Avenida Embaixo do Minhocão" - e que havia resolvido a questão sobre o caminho enquanto o percorria.
Segui boa parte da ciclovia que há debaixo do grande elevado. Passei pela Santa Cecília, mas não vi a Catedral, estava do outro lado, cruzei o Largo do Arouche, e depois a Praça da República. Como é bom pedalar despreocupado e assistir o vai-e-vem apressado às seis da tarde, o escurecer do céu, a barulheira dos transeuntes apressados: "hoje tem jogo", "vai perder".
Biblioteca Mário de Andrade, 7 de Abril consternada por uma obra, Teatro Municipal. Conforme ia passando pelos locais me recordava de pessoas, de momentos, de situações diversas vividas entre os 14 e os 27 - quando eu era jovem, inclusive, adorava essa região, mas isso só durou entre os 15 e os 18.
Vi o Vale do Anhangabaú de cima, passando pelo Viaduto do Chá, Libero Badaró, Largo São Francisco. Segui pela ciclovia que corta todo o centro, vem lá desde antes do Largo São Bento e vai morrer na Praça da Sé, depois de cruzar toda Rua Benjamin Constant. Foi quando cheguei na praça do Marco Zero que vi barracas em que pessoas vendiam alimentos, policiais militares montados em cavalos, oficiais da Guarda Civil Metropolitana parados, dois repentistas fazendo agradável barulho sob a forma de rimas, pessoas deitadas recolhidas em seus cobertores ao pé de coqueiros.
Continuei pela ciclovia atrás da igreja, Praça Doutor João Mendes, Avenida da Liberdade, então o Largo da Liberdade, "a 23 de Maio Parada" quer dizer "iluminada de branco dum lado e de vermelho do outro". 
São Joaquim e a subida da Rua Vergueiro, é pesada, mas é gostosa, as pernas nem reclamam, aprendi a pedalar assim. A noite já caiu, a subida é escura, vazia, assustadora em alguns pontos - essa constante sensação de perigo não é nada gostosa (o vazio por aqui não é gostoso) mas me faz pedalar de maneira ágil e firme.
Então parei na estação Vergueiro, onde há o Centro Cultural São Paulo. Ainda me recordava das tantas luzes nas torres de escritórios visíveis ao cruzar o Viaduto do Chá - em 2014 fiz uma entrevista para emprego numa delas. Me pareceu justo que parasse no Centro Cultural, acorrentasse a bicicleta e tomasse um café. 
De certa forma, ah Centro Cultural, um dos meus oásis em São Paulo nos últimos dez anos. Aqui tracei planos para ir embora de São Paulo em 2007, aqui visitei sonhos entre 2008 e 12, aqui rabisquei o plano de retornar a São Paulo em 2013, aqui vim para respirar entre 2014 e 15, e, por fim, aqui vim em 2/8/2016, para começar a me despedir desta cidade após cruzá-la de bicicleta em um fim de tarde fria. 
Começou o meu adeus, bosta de cidade.


domingo, 26 de junho de 2016

Pacote textuoso.


Texto desencontrado.
Teve um dia em que eu simplesmente larguei mão de alcançar "o melhor". Hoje eu deixei a televisão ligada na disputa do terceiro lugar da Copa América e achei incrível como o estadio estava vazio e isso soou incrível por que a seleção do país-sede estava disputando o jogo, mas é compreensível, trata-se dos estados unidos da américa e eles tem essa obsessão por ser sempre "o melhor" e aí os caras estão lá disputando terceiro lugar que merda tem que ser primeiro tem que ser o melhor se não é looser terceiro lugar é looser; eles ficaram em quarto e consigo imaginar os cinematográficos texanos falando ardido what a fucking them looser forth place. Simplesmente larguei mão de alcançar "o melhor", e fui seguindo a linha até chegar a pipa, apenasmente isso mesmo: larguei mão e com um desgaste colossal fui puxando a linha da pipa até que ela chegasse às minhas mãos - eu vou fazer, eu estou fazendo, eu fiz, eu tentei dar o meu melhor, mas larguei mão de alcançar "o melhor". Acho que isso não aconteceu em um dia, talvez em "um dia" eu tenha escrito isso em algum papel que se perdeu ou tenha tido esse estalo mentalmente, mas foi um fruto processual como todo bom fruto. Estou num período em que eu simplesmente não sinto mais saudades, não me considero mais aquele ser amorfo mofando por respirar só saudades, parece que elas já tem uma residência fixa e eu consegui lidar com isso sem ser como uma exceção escabrosa; também não me considero mais aquele sujeito repleto de expectativas positivas e perspectivas bacanas (isso sempre dura pouco tempo, bem menos do que o desejável). Larguei mão de fazer "o melhor" em nome do desejo de fazer, chegou um ponto em que eu realmente pensei que fazer já seria "o melhor", o que não quer dizer que não dei o meu melhor, quer dizer que eu alcancei uma conceituação de melhor, e isso é sempre frustrante quando: lidamos com múltiplas conceituações de algo assim; somos ansiosos e inseguros; temos a cabeça tal qual nuvem flutuante se dispersando por entre paisagens distintas e diversas; temos de lidar com um golpe. Estava lendo um texto muito bom quando dei um alt+tab para descansar o cérebro um pouco vendo besteira na internet e então tropecei em bosta pesada, coisa fétida mesmo: a onda separatista quebrou na costa, a areia é lisinha e clara, a praia é de tombo; alguns berbigões se esconderam na areia e deixaram como rastro pequenos furos, outras ondas, do mesmo separatismo vieram em seguida, conseguiram caçar berbigões cansados e arrastá-los para dentro do mar, outros seguiram em um fluxo de se esconderem até serem desescondidos. Seria interessante, mas acho que isso fica para depois, fazer um texto sobre a noite em que faltou luz aqui no bairro. Não foi de um dia para o outro também, mas foi um pouco antes de largar mão de alcançar "o melhor", eu tive consciência de que talvez fosse a pessoa errada na hora e lugar certos, uma definição assaz pesada e até xarope, mas que não tenho lá muita vergonha em usar, por que me soa legítima: eu olho em volta, olho para trás, rolo as páginas de textos diversos, vejo as fotos, a bagunça no quarto, a infinidade de sujeitos com passagens fluídas e curtas em um período relativamente curto - quanto mais a gente vive, mais um período tem que durar para soar "longo" - e me certifico da quantidade de questões confusas e mal amarradas, definições de índole questionáveis pois duvidosas; ouvi também um compilado de canções minhas do período que organizei num fim de noite de insônia e reforço essas noções, vejo nas músicas que ouço coisas que cheiram muito mal por terem soado tão bem para todos esses sentidos. É sincero dizer que larguei mão de alcançar "o melhor" e também é sincero equacionar o errado-certo-certo. A grande verdade é que olho para todos os produtos finais (inclusive no espelho, onde vejo a carne processual de todos os frutos) e penso que levo um vazio - sendo que esse próprio vazio, o do link, é fruto do período, embora seja da etapa em que eu ainda não havia largado mão de nada, mas parece que eu partilho certa crença nesse vazio todo que preenchi com palavras perdidas.
Até que ficou um texto encontrado, parece um pacote.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Eu nunca vou sarar dessas saudades - II.


[Ou "A escada"].
[Articula diretamente com "eu nunca vou sarar dessas saudades"].
Outro dia eu estava pensando que eu deveria saber definir melhor as diferenças entre espaço e lugar, e eu na real não sei. E tem uma coisa que eu já penso faz um tempo sobre isso, vou explicar. Outro dia minha mãe se referiu à escola onde ela trabalhou por muitos anos e eu estudei por outros tantos. Aquela escola não existe mais, e já faz um tempo, a edificação foi demolida, se tornou terreno e atualmente é um prédio de alto padrão, coisa para ricaço mesmo. Mas no referencial da minha mãe, a região ainda é "perto da escola". Uma questão de espaço-tempo interessante para pensar. 
E aí tem outra coisa que volta e meia eu penso nesse rumo: a escada do antigo Cão Pererê, em Marília. A que levava do bar para o andar onde tinham os shows, onde realizei os meus primeiros trampos de portaria para a casa, durante as noites de jazz em meio de semana às quartas-feiras em 2011. Talvez aquela escada nem exista mais, penso. Acho que a última notícia que tive daquele espaço é de que foi transformado, enquanto lugar, em um depósito ou algo do gênero do mercado que tem no mesmo quarteirão. Sei lá se mantiveram a escada.
Com certeza, aconteceu muita coisa naquele espaço, tomado como lugar, referencial de acontecimento, ponto preciso de situações. É um pecado terem demolido aquela escada, se o fizeram mesmo. Aliás, e isso eu estava pensando outro dia pedalando por São Paulo, toda demolição é um pecado. Imagine que demoliram um prédio inteiro, perfeito, intacto, só para dar continuidade a uma obra do metrô perto da ponte da Freguesia do Ó. Todo mundo sabe que as obras do metrô são uma mentira, são planejamentos que não se concretizam, são acidentes, são histórias para boi dormir ou histórias para paulistano tal qual boi dormir em seus deslocamentos cotidianos. Mas aí demoliram um prédio perfeito.
Tratar o espaço de maneira tão burra, em nome de criar supostos lugares. Mas tenho mesmo saudade daquelas escadas.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Acabar.


Uma dificuldade sempre foi acabar. Dar por encerrado. Pode parecer besta, mas acabo me apegando de maneira muito intensa às coisas que devem ser feitas e por mais sôfregas que elas sejam eu não consigo simplesmente acabar levantar lavar as mãos amarrar os cadarços e sair por aí. Coloque nessa tigela desde fazer um almoço e comê-lo até terminar um relacionamento relativamente longo ou consideravelmente curto - o lance da dificuldade está também justamente em perceber que há uma temporalidade girando no cronômetro mas ignorá-la e tratar segundos com a mesma intensidade com que trato os anos - e não vejo nisso um defeito ou algo a ser corrigido. No ano seguinte ao que terminei o ensino médio eu frequentava a escola semanalmente, e um inspetor dizia que eu ainda não havia conseguido cortar o cordão umbilical; era uma boa metáfora, e isso já faz quase dez anos. É um troço burro, sobretudo no que diz respeito às coisas que geram desconfortos, e aí, da dificuldade em encerrar o desconforto, mais desconfortos nascem e crá crá crá crá vocês já sabem. 
Verso zero.
Bom, ainda faltam questões pontuais por organizar, também há costuras e amarras mais sólidas por realizar, justamente, a fim de tornar o texto sólido. No entanto, não é cedo para dizer: "eu escrevi uma dissertação de mestrado".
Parabéns, cara.
Que é isso, para você também, parabéns.
Não, eu não mereço os parabéns.
Claro que merece, estamos juntos.
Rapaz, passei o tempo todo te desvirtuando da coisa. Você merece todos os parabéns, e em dobro: você venceu as suas dificuldades e me venceu.
Mas é justamente por isso que você também merece os parabéns: vencemos as nossas dificuldades e nos vencemos, um ao outro, nessa guerra tão atroz pelo nosso corpo e pelo nosso tempo.
Será sempre esse conflito?
Não sei. Mas vamos em frente, sigamos fazendo.
Isso mesmo. Fazendo de tudo.
Faremos. De tudo.