sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Teoria da Salada.


Questão:
Quando se coloca salada, composta por distintos itens (por exemplo, cenoura crua em rodelas grossas, couve manteiga em tiras grossas e pepino em rodelas finas) em um prato ou refratário mais ou menos plano, e se tempera a salada, a ordem dos elementos no refratário interfere na qualidade/intensidade dos temperos em cada um dos alimentos?

Desenvolvimento Prático da Questão:
Me parece que a ordem dos elementos de uma salada pode interferir na composição do sabor final de cada alimento, variando conforme a exposição aos temperos lançados. No caso do exemplo acima mencionado, as rodelas finas de pepino foram colocadas diretamente sob a superfície do refratário plástico (dito "Tupervare"), acima delas as tiras grossas de couve manteiga e, por cima das tiras, as rodelas grossas de cenoura.
Observo que as rodelas de cenoura exercem pressão, por meio do peso, sobre as tiras de couve, o que gera certas "Montanhas" de couve no refratário - algo que se assemelha a esta bela paisagem no município de Cambuí/MG:


Temperarei a dita Salada com vinagre (um líquido pouco espesso), azeite (um líquido denso e espesso) e sal (um pó branco, cristalino, fino), e, parece-me, que a "Formação Geográfica Montanhosa Couvística", favorecerá que o vinagre, menos denso e espesso, escorrerá com maior facilidade até o pepino - gosto do pepino trabalhado no vinagre. 
O azeite, por sua vez, líquido grosso e denso, dificilmente passará pelas folhas grossas de couve, some à espessura da folha de couve, seus 'veios', que possivelmente impedirão que boa parte do azeite escorra. 
Sobre as rodelas de cenoura, reinando triunfantes como o único tom vivo e não pertencente à escala do verde (cor que vocês sabem que eu desprezo) na tigela, cabe mencionar sua composição salínica. A cenoura é um legume adocicado, requer mais sal para que não transforme a salada - dita experiência sal(g)ada para abrir o almoço - numa experiência "Sal(g)adoce" ("Saladoce", a rapaziada da gourmetização deve usar essa palavra). Não gosto da cenoura muito doce. Por isso, me parece que polvilhar o sal por cima de todo o ecossistema criado na tigela, favorecerá que a cenoura absorva maior parte do sal ou que eu direcione mais sal por salpicada para cada rodela, o que favorecerá que o sal se misture ao azeite e ao vinagre e escorra por entre as tiras da couve.
Um entrave, no entanto, há na relação do pepino com o sal. Parece-me que pouco sal chegará a ele com esta disposição dos alimentos na tigela e na colocação dos temperos - e gosto do pepino salgado e envinagrado.

Conclusão: 
A ordem dos alimentos conforme colocados no refratário coordena qual será o grau de intensidade de tempero nos alimentos. Chegou-se a tal conclusão após experimentar-se a salada preparada e temperada conforme disposto acima. Menciona-se, por outra via, que deixou-se os elementos componentes do tempero escorrendo e agindo por cerca de dez minutos na salada - período em que se estruturou o artigo que aqui se apresenta. Por fim, uma vez provada a salada, notou-se que havia, como suposto, pouco sal no pepino, o que gerou certo desagrado sentido a partir de minhas papilas gustativas. Para contornar tal problemática, em um primeiro momento aplicou-se mais uma rajada de sal sobre o ecossistema saladístico e, em seguida, com a força depositada sobre o garfo, mexeu-se toda a mistura.

Teoria sobre temperamento de Salada.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

À nossa humanidade!


Esse ano foi difícil, complicado. Sem emprego, sem perspectivas por um bom tempo. Nossos encontros, cafés, almoços e pizzas no verão chuvoso, que se estendeu até o fim de março, eram pequenos oásis naquele meu cotidiano seco, arrastado, desocupado que você tão de perto acompanhou.
As histórias que me contava, aliás, que sempre me conta, de tempos distantes, épocas de outras "Crises" - "Não tinha combustível na década de 1940" - e a recuperação delas, proporcionavam-me boas esperanças, um bom conforto em meio ao caos - e não nego que vez ou outra a visita para o café ou "Só uma passadinha" foram estratégias para acalmar o coração.
No fim de março, junto com o fim do verão, as coisas mudaram. Voltei a ser, no sentido prático da palavra, professor, e passei a frequentar Mogi das Cruzes, cidade que é cenário de muitas das suas histórias de infância.
Passei a frequentar espaços que você cita em memórias. A escola que seus irmãos mais velhos frequentavam, da qual um deles certa vez tentou, sem sucesso, escapar de um dia de aula. 
A rua em que você morou - a sua casa, em que se apoiava na janela para conversar com os professores de francês que passavam pela calçada e lhe ensinaram os primeiros "Oui's", já não existe mais, virou um estacionamento. Mas não me privo de sempre que passo por lá imaginá-la, em passos de criança, perambulando em brincadeiras por ali (talvez da forma como eu, por tantos anos, perambulei por brincadeiras na "Sua rua").
Passei a vivenciar, também, situações que lhe são tão vividas nos relatos frequentes dos tempos de professora: "Tive que aplicar uma prova encardida...", "Estou com os diários de classe atrasados...", "Vou com os alunos em uma excursão...".
Por outro lado, e isso me chateia, deixei de estar próximo de ti nos afazeres do cotidiano atual. A agenda semanal de sobe e desce para fazer um monte de coisas sempre. Os olhos piscados em tom de deboche para a filha que sugere que pare de dirigir, e que se tornam olhos de deboche para mim também, pois eu concordo com ela, embora te entenda... Deixei de presenciar também os risos e as novidades: o que aconteceu na última viagem, quando será a próxima, para onde será o próximo passeio, qual a novidade na lojinha...

Esse ano começou difícil, não está fácil - e você sabe que eu acho que vai piorar, em muitos aspectos, nos anos próximos - mas melhorou. E melhorou muito, pois, a sua humanidade, do alto dos 39 anos que completa neste Treze de Novembro, formada ao longo de passados, presentes e futuros distintos (para onde a próxima viagem?), ajuda a formar a minha e a encarar esse mundo sabendo usar bem os poucos coringas que caem na mão.  
Feliz Parabéns, Vó.




terça-feira, 7 de novembro de 2017

Panela de pressão.


Conhecer medos, criar receios. Em contrapartida, como humano dotado de sensibilidade e sapiência, criar refúgios, estratégias para não ser atingido pelo que se sabe periculoso. 
Foi em 2008, saía do apartamento em que morava enquanto o rapaz com quem eu o dividia fazia feijão. Ou grão de bico. Fechei a porta, do corredor do condomínio ouvi um estrondo. Voltei, abri a porta, e vi o rapaz acuado na sala. 
Até então, na minha cabeça, "Explosão de panela de pressão" era papo batido, balela, coisa dos tempos de panela de pressão que funcionava à manivela, sei lá ué...
Junte uma péssima lembrança à conveniência, preguiça e um teco de desdém pelo que se diz "Saudável", e nunca usei panela de pressão. Seis anos de universidade em que comia feijão apenas no bandeijão (no nosso campus o chamávamos de "ErriÚ" mesmo, sigla para Restaurante Universitário). Três anos entre a casa da mãe, do pai, como filho sem nenhum espírito santo, que me contentava em comer o que eles faziam - menos por preguiça de cozinhar e mais por impedimentos de usar as cozinhas deles: "Você faz muita bagunça", me diziam dum lado, "Sua comida é gordurosa demais", do outro. 
Mas então ocorreu, e, uma vez consolidada a vontade tantas vezes desejada de tornar à autonomia do lar sem progenitores; uma vez retomada a vida sem bandeijões ou Cínthias (louvável nutricionista do ErriÚ Mariliense) para ter acesso à feijões sem precisar cozinhá-los, foi inevitável: após vinte e oito anos de vida, precisei aprender a manusear a panela de pressão.
"Que depressão...", era o bordão do apartamento que vivi entre 2009 e 2011, à parte algumas épocas, período de longas depressões, movimentos depreciativos contra nós mesmos...
Quando abro a geladeira e vejo que se acaba o feijão temperado, abro o freezer e vejo que já não há mais nenhum ex-pote de margarina, tornado em recipiente para preservar os icebergs marrons de feijão cozinhado, exalo um longo suspiro: "Chegou, novamente, o dia da panela de pressão... E que depressão!".
Recordo-me dos apartamentos de 2008, de 2009. Respiro fundo e sigo em frente. É a panela apitando em cima do fogão, e eu refugiado num canto distante. A casa é pequena - das nove em que já morei na vida (contei hoje), talvez seja a menor - mas encontro um canto distante. E fico lá/cá, refugiado em minha estratégia segura, faço minha parte para não ser engolido pela des-seleção natural: caso ela exploda, creio que daqui não serei atingido.
Conto minuto à minuto, já se passaram vinte e seis, mais quatro e a desligo, amém! Nada consigo fazer ou criar. Trabalhar, pensar, me concentrar. É tudo impossível, absurdo icogitável. São os ouvidos ligados no barulho que me recorda as cachoeiras de Brotas entre 2011 e 12, as máquinas das fábricas nos Distritos Industriais da vida urbana. 
Três e vinte e oito, volto a ser ateu: vou desligar a panela de pressão. 

 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Bosta - II

[Este texto articula, em tom de prosseguimento de raciocínio, com este aqui chamado "Bosta", que agora se torna "Bosta - I", publicado inicialmente em 21/05/2017 e republicado no livro "A dissertificação de mestragem de Gabriel Coiso", que você compra aqui e lê acessando o blogue aqui de março a junho de 2016. Agora vou começar o texto propriamente, imagine que isto que você leu até agora foi como o vídeo de comercial antes do vídeo no youtube começar; ou mesmo como os trailers antes do filme].

O que diferencia "Época" de "Período"? Esta é a questão condutora em "Bosta - I". A conclusão que cheguei naquele instante é a de que "Época" é algo que está diluído em um "Período". Ou, de outra maneira, existam várias "Épocas" dentro de um mesmo "Período". Digo isso a partir da experiência empírica, e algum ou outro referencial oculto mentalmente introjetado. 
Ocorre que, pensando no assunto por agora - curiosamente a partir de uma foto da mesma época que me levou a esta reflexão um ano e meio atrás - entendi que existe um terceiro fator a ser considerado: o assunto.
Quando penso, por exemplo, "Naquela época eu era bem mais Corinthiano", o que define a relevância do período e a especificidade da época, é o "Ser Corinthiano", algo que ainda sou com veemência (apesar dos pesares do que se tornou esse clube). Ou seja, a intensidade deste tema, "Ser Corinthiano", varia conforme as épocas dentro de um período que ainda se mantém, justamente, o "Ser Corinthiano".
Suponhamos que daqui um tempo (o que não me parece mais tão absurdo ou icogitável assim) não consiga mais aceitar os pesares com apesar, e deixe de ser Corinthiano. Neste preciso ponto haverá uma drástica mudança de períodos, não só de épocas, pois o tema, o assunto deixou de ser relevante, assim, direi/diria: "Teve um bom período da minha vida em que o Corinthians foi a coisa mais importante de minha vida".
Épocas e Períodos, Períodos ou Épocas, para entendermos, nos situarmos com relação a eles em nós, é necessário que tenhamos bem definido, bem recortado, de quais fatores em quais épocas em quais períodos estamos lidando. Pois, é sempre bom não perder de vista, estamos falando da vida enquanto um plano repleto de alterações, mudanças, variações que, sabemos, tem começo, meio e fim.
Assim como o Brasileirão, assim como ainda desejo com toda a força do meu ser que o Corinthians ganhe esse campeonato, pois estamos numa época, dentro do período, em que os pesares ainda são facilmente superados e eu estou com sangue nos olhos.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Acostumado.


Quando chego no topo de uma subida e venço o semáforo, aproveito a breve planície para reorganizar as marchas da bicicleta, sair do modo "Suave" para o "Força", e, então, saborear a descida da Souza Franco. Por vezes até abro os braços e curto o vento, mas por pouco tempo, é necessário prudência pois há um semáforo, um cruzamento, com ônibus e carros e afins guiados por pessoas cuja índole desconheço. A barrigada é feroz, quase um mergulho daqueles de passeio marítimo em cidade de natureza (semi)preservada quando se atraca a embarcação turística em um ponto qualquer e quem pagou pelo passeio usufrui do momento máximo do mesmo: pular na água. Sensação fantástica. A barrigada no pós descida da ladeira é assim: "Ufa, chegamos, venci mais uma vez essas subidas e saboreei essa descida". Às vezes penso que deve ser bom ter como "última sensação em vida" sentir a sensação de que você mais gosta, ou uma das. Imaginei-me sem prudência, braços abertos, olhos fechados e pláu, o corpo vai ao chão, ou, aliás, fragmentos descolados de um outrora corpo espatifados em vermelho ao chão. Ferros retorcidos. Luzes vermelhas da ambulância, gritos de pedestres, fotos e vídeos nos celulares de curiosos - na rua todo mundo pode receber qualquer definição, depende da conduta. Fim. A última sensação que saboreei na vida foi o vento na cara em uma descida lascada e foda-se o impacto ou a dor, até nesse caso durou menos do que o prazer da descida.E o curioso é notar, nesse pacote todo, como já estou acostumado, como já entendi onde tem que frear, onde dá pra virar e como será mais fácil chegar dependendo de por onde seguir. Eu já tô acostumado, ainda conhecendo, mas acostumado e, tenho certeza, olhando pro outro lado da moeda, já me desacostumei do que tanto me queixei. Segue o barco. Segue a bike.