segunda-feira, 19 de junho de 2017

Bananas Nucleares.


Aconteceu que havia uma banana sobre o prato macio recoberto por um pano liso em tom de rosa limpo limpíssimo "Mantenha limpo". Já descascada, apenas repousava em cima do prato uma bela banana prata. A tragédia começou a ocorrer, isto é, a primeira etapa de ato que pode ser classificado como "Trágico" pois ocorrido no sentido oposto do que deveria ter ocorrido, quando a outra banana, também já descascada, mas não prata, e sim talvez quem sabe nanica mesmo, foi colocada ao lado dela. Duas sínteses do reino dos frutos distintas que estavam ali sobrepostas ao lençol em tom de rosa limpo limpíssimo "Mantenha limpo" e divisando um colchão. Dois corpos ladeados, um pouco sobrepostos. A segunda etapa nos procedimentos desgraçadamente trágicos iniciou-se com a ação de força exercida por um grande garfo de dentes prateados. Quatro dentes de metal suavemente pressionados contra as duas bananas nuas de casca, e mexe daqui, mexe de lá, a segunda tragédia corroeu-se por sobre o prato dito colchão. As duas bananas misturaram-se por completo, já não se sabia mais o que havia sido prata e o que havia sido nanica. Já não se sabia o que eram sementinhas e o que eram fibras. Já não se sabia a qual casca pertencera cada banana, pois já não mais existia "Cada banana", e sim uma massa uniforme composta por duas bananas em estado de completa infusão alheia entre si. Por livre e espontânea vontade, dois corpos carregados de sentidos e significados biológicos, históricos - e, por que não, artísticos. Fusão completa, saborosa, tornando o lençol em rosa tom de limpo limpíssimo "Não o mantivemos límpido, mas foi por uma ótima causa, veja bem meu bem, se isso não é amor, o que há de ser?".

Uma vez compreendido o processo vivenciado e saboreado, pode-se tomar fôlego racional empírico para seguir adiante. E seguimos. Ladeados, iluminados por uma luz alaranjada de fim de tarde de outono, caminhávamos por uma pista de madeira. É difícil acreditar nisso pois antes tenho a certeza de que não haverá futuro, pistas feitas de tábuas de madeira como essas, pois acredito que não nos deixarão futuro por viver. Não no sentido de que não "Caminharemos juntos", mas sim no sentido de que, bastardos, derreteram geleiras, edificaram riquezas, queimaram a camada de ozônio, acabaram com a terra que germina sementes que faz nascer árvores para que exista madeira para que as poucas porcas quantidades de elites que edificaram a riqueza derrubando árvores, humanos, animais, rios, pés de bananas tenham pistas de madeira... Não nos deixaram vida. Não nos deixaram palavrões impugnados por dizer - "Será que alguém ainda hoje em dia fala 'fazer amor'? Será que quando meus amigos e minhas amigas começarem a ter filhos e filhas e eu for visitar as crianças terei que deixar de ser assim desbocado e terei de falar, quando as crianças estiverem por perto, 'Vocês tem feito amor?' em vez da clássica questão 'E aí, tem me tido?'". São muitas questões, a cabeça foi longe. Sentado na tal pista de madeira - que creio que no vocabulário elitista se chama "Deck" -, com as pernas penduras e os pés na água do rio, de mãos dadas com você, me peguei pensando como será esse futuro, pois não nos deixarão futuro. "Grandes merda", eu respondi, "Não falar 'tem me tido' perto das crianças para que elas cresçam sem malícias ou putarias. Grandes merda ter vocabulário e mentalidade límpida, pueril mas não ter uma porra duma floresta saudável, não ter uns pés de banana orgânicos para experimentar o que é uma banana sem agrotóxico, não ter uma porra dum rio bacana como esse para pôr as pernas...". Foi então que notei que na verdade, eu conversava comigo que, por sua vez, conversava com um terceiro. Note, eu estava deitado sobre a cama, e me imaginava sentado no tal "Deck" de tábuas de madeira, e era outra pessoa, que estava na cabeça dessa pessoa que estava na minha cabeça quem conversavam. Há um detalhe temporal por ser descrito nesta esquizofrenia, o eu mental era o eu mental do futuro, dialogando com o eu eu mental mental do futuro futuro e comigo. Por fim, em termos de futuros, afirmo - lucidamente - "Pode não haver futuro, grandes merda, pode não ter havido futuro, grandes merda! Mas que a linha tênue do final da porra toda seja ouvindo uma música tão fantástica como essa, e como massa esmagada de bananas, o fazer mesclado ao seu corpo. Pois, como disse aquele outro eu de outro passado, 'Se isso não é amor, o que há de ser?'".


Foto: Deusa.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Resignado com a ladeira.


"Resignado" é um termo cujo sentido prático fui entender apenas recentemente. Uma explicação das mais pedagógicas em um domingo de manhã sob o chão marrom de quadradinhos azulejados da cozinha de casa. "Resignado" foi termo que bateu à porta das minhas ideias, também recentemente, em uma conversa repleta de angústias destrutivas em uma conversa sob o chão de azulejos retangulares cor de creme na casa de um irmão: "A molecada hoje parece estar já resignada com o capitalismo, e eu não consigo me aceitar nesse modelo, não consigo eu mesmo me resignar com isso", foi dito.
Quando comecei a percorrer a cidade de São Paulo, aliás, parte dela, de bicicleta, minha onda era elaborar caminhos mais suaves. Por bons meses me recusei a ter trajetos convencionais ("O caminho de sempre") para tentar outros que pudessem ser mais eficazes, mais curtos, com menos subidas, com vias mais seguras em que estivesse menos exposto à insanidade daqueles & daquelas que de trás de seus volantes ignoram a existência de outros. Ainda faço isso, o prazer de passar por uma rua desconhecida é-me causador de grande satisfação. Às vezes me dou mal, passo por uma rua em que os demais transeuntes não me olham com bons olhos, chego em uma rua sem saída, dou de cara com uma energúmena subida, e, em última instância, mas que já ocorreu um par de vezes, erro o caminho, dou meia volta e pedalo até o ponto onde posso retomar o trajeto dito convencional.
Um dos trajetos que mais me fez fuçar nos mapas on line e na pedalagem urbana para encontrar a escapadela duma subida lascada foi para sair da casa de minha mãe. Posicionada no topo de uma ladeira íngreme daquelas em que se sobe bastante, sem diminuir a inclinação, no meio do caminho há uma curva, e após está, outra subida, de angulação ainda mais inclinada. Na base da ladeira, configurada então como descida (pois estou me referindo a quando vou embora), há uma plana avenida, no centro da qual há um córrego - aliás: a avenida foi construída nas margens do córrego, é importante nos lembrarmos das etapas corretas dos processos destrutivos sem escrúpulos de urbanização. E para alcançar a avenida que compõem-se como rota central da maioria dos meus trajetos, tenho de subir outra ladeira, o morro oposto ao que ela mora. Penoso exercício para as coxas, panturrilhas, barriga e ombros, devo dizer.
Pois foi tentando escapar dessa penosidade que conheci diversas vias da região, uma mais íngreme que a outra, uma mais extensa que a outra. Uma inegável geografia de planície ao centro e relevos ao redor que se estende por quilômetros, a sul e a norte, e que não me deixa escolha: mais cedo ou mais tarde terei de enfrentar alguma subida lascada. 
Não há como fugir da ladeira. Respiro fundo, "Resigno-me" perante os metros de asfalto em inclinação, jogo a marcha lá em baixo - marcha número um nos trocadores esquerdo e direito, e vamos lá. Pedalo sem pressa, evitando fazer força. Ando pouco, mas ainda assim estou andando. As pernas reclamam, como não, mas sigo no movimento. "Devagar e sempre", diz o ditado. Os carros passam rasgando ao meu lado, diminuindo a marcha e soltando barulhos escabrosos. Não fosse a ladeira, o trajeto de trinta minutos seria feito em quinze. Houvesse um trajeto mais plano por seguir, o caminho seria menos penoso, menos doloroso...
Recordo-me bem de qual foi o momento da vida em que respirei fundo e pensei comigo mesmo: "Bom, não tem jeito mesmo, para saborear os meus afazeres prediletos terei de encarar chibatadas no lombo". Sem saber, estava me resignando com o capitalismo. As chibatadas doem, mas fazer o que, até o momento ainda não encontrei outro caminho, e já me deparei com subidas piores, ruas sem saídas e becos hostis o suficiente para saber que, por ora, tudo bem passar um tempo em marcha lenta, haverá o tempo da velocidade, do vento na cara, de abrir os braços e pedalar destemido com força máxima assobiando algum tema espontaneamente composto.
Os azulejos quadrados e retangulares são testemunhas oculares barrosas, cerâmicosas, de que entendi o que é resignação e de que ela pode não ser algo tão ruim assim.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A grande teoria da personalidade que irradia.


Mas, na verdade, esse é só um esboço de uma teoria que ainda não se mostra como tal, tampouco que demonstra indícios de que irá se tornar grandiosa ou, meramente, grande. Bom, mas, sigamos adiante: há uma ideia em curso, e há práticas correntes que dialogam com a ideia, o que me faz compreender que, factualmente, há uma teoria por vir.
Trata-se de personalidade, aquela construção individual-social que é comum ser outorgada à composições genéticas e a posicionamentos lunares, estrelares, planetares. Mas não creio nisso não. Também não creio em dedo de santo, benção de anjo, sopro divino ou olhar de entidade. Personalidade, ao meu compreender, é uma camada bem grossa de cimento, uma fileira de tijolos, outra de cimento, e outra fileira, e assim sucessivamente até formar uma parede, então outra, então outra, mais uma e tem-se um cômodo, aí entra a porta, outro cômodo, diversas fileiras, diversas paredes, janelas, espaços vagos; móveis em imóveis. Personalidade é construção. 
Puxadinho é o nome popular que se dá para a construção extra, aquele quartinho a mais, aquele pedaço subtraído do quintal ao qual são destinadas fileiras de cimento e tijolos para que se torne metro quadrado de uso prático e objetivo. Puxadinho é a irradiação da construção, proliferação em sentido não negativo, expansão. 
É inegável que a personalidade, enquanto construção, pode não ver limites. E mesmo quando na construção primeira da casa não foi previsto a necessidade daquele "Quarto de fundos", ou mesmo que tenha sido pré-estabelecido: "Vamos primeiro erguer a casa, deixa aquela terra batida atrás, depois a gente cimenta, depois vê o que faz". E assim segue-se a construção. As irradiações no terreno são finitas conforme a metragem. As reconstruções, igualmente: "Vamos derrubar essa parede aqui, e deixar aberto o caminho por aqui agora para que os cômodos da construção sejam menos distintos e mais próximos, interajam".
Mais um andar, mais alguns cômodos. O quarto dialoga com a sala que tem passagem para o banheiro cuja janelinha tem de ficar afastada da cozinha que permite acesso ao quintal por onde se passa pela janela do quarto e se chega à sala novamente.
A construção da personalidade se irradia pelo tempo de vida, personalidades emergem em um mesmo corpo tal qual paredes e cômodos em um terreno fértil à construção civil. E isso parece-me uma teoria plausível, talvez, se devidamente desenvolvida, pode vir a ser uma grande teoria sobre a personalidade que irradia, talvez não - depende de qual personalidade a desenvolver, bem como, de em qual cômodo da casa for armazenada. Fato pontual é que talvez demolir casinhas espontâneas para erguer prédios idênticos seja estratégia para amortizar personalidades frente à uniformidade, talvez, guardar cada personalidade num cômodo a ser acessado cada qual no momento específico, seja restringir a proliferação (novamente, não pejorativa) de mais e mais e mais e mais encontros e personalidades irradiantes possíveis.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Os números mudaram.


Olhei a tela brilhante do caixa eletrônico a cegar os meus olhos de recém acordado que ainda não havia tomado café ou comido qualquer cream cracker mas já estava na rua. Sete e vinte e oito da primeira manhã que atrela frio e chuva assim de repente bem nos nossos ossos. "Não é possível", gaguejei. Lá no fundo da farmácia, escala improvável naquela manhã, realizada apenas em razão do letreiro luminoso, embora estivesse desligado, a frente da mesma que indicava a presença do caixa eletrônico, uma jovem mulher olhava para mim. Deve ter algo a chamar a atenção quando uma pessoa entra no estabelecimento em que você trabalha brigando com um guarda chuva que se recusa a fechar, derrubando uma mochila ao chão, em seguida uma carteira e, por fim, praguejando as mangas duma camisa. Deve-se dedicar alguma atenção, sobretudo em termos de criar uma cautela prévia, para este tipo de sujeito - e, fato inignorável, tratava-se dum estabelecimento comercial, cuja única funcionária presente era uma mulher, com um homem esquisito entrando em meio à uma sociedade das mais machistas. Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico notei que ela me olhava - de certa forma a frase é flexível: "Todo o tempo que passei de frente ao caixa eletrônico olhava para ela". Ao tornar o cartão para a carteira, cutuquei um par de moedas de cinquenta centavos e uma de um real, "Meu desjejum será alguma bolachinha, se é que se vende bolacha por dois reais numa farmácia burguesa fincada em coração de bairro burguês". 

-Bom dia.
-Bom dia.
-Você tem algum tipo de bolacha?
-Não.
-Algo de dois reais para comer?
-Tem barrinha de um nove nove.
-Vou levar uma. 
 Saí da farmácia carregando a imagem do riso dela. Lhe expliquei o que ocorrera, da maneira mais sincera possível, e consegui, desta maneira, dissipar a tensão causada pelo meu comportamento bizarro.

Mais tarde naquela mesma manhã, em que parecia haver menos chuva e mais frio do que duas horas antes - o que é uma meteorologia controversa, visto que havia sol a esquentar os lombos que enfrentavam a rua - parei em um mercado para realizar algo próximo dum desjejum mais digno do que os copinhos de café e as bolachas de mar em miniatura (ou lágrima em versão expandida) que consumi na sala dos professores. Passei por outro caixa eletrônico: "Não é possível", gaguejei novamente. Pelos corredores do mercado, passeei em busca do que comporia a minha atrasada "Primeira refeição do dia". Olhava prateleiras, olhava produtos, olhava etiquetas e, diferentemente da última vez que passei por aqui, na semana passada, situação em que tinha a lista de compras claramente definida na cabeça ("Duas bananas da mais barata, um pão francês e três fatias de mortadela, se der mais do que quatro reais terei que deixar as bananas...") permiti ao meu corpo (o que incluí a mente) caminhar pelos corredores. 
Bolachas, Fandangos, Refrescos, Bibidas, Ovos de Páscoa, Colombas (era "quarta feira santa"), Mortadelas, Pães com queijo em cima, Mini Churros, Frutas importadas, Bananas distintas, Massa fresca para macarrão saboroso, Iogurtes diversos, Molho de tomate em frasco de vidro, Pão de queijo à granel, Pertences para feijoada, Sessão de alimentos "Orientais", Bacalhau... 
À perder de vista o tempo caminhei pelo mercado, observei uma mágica e espantosa realização que saltava à vista a partir das etiquetas: os números mudaram. Etiquetas amarelas - ou em laranja gritante, quando se trata de pseudo promoções - com impressões em tinta preta com o nome do produto e a quantidade de dinheiro em reais que deve ser entregue a quem trabalha nos caixas para chamar tal produto de "Meu" passavam por uma transformação. Foram esses números, os impressos em preto, que mudaram, que passaram a me comunicar outras mensagens, ter outros significados e, por que não, representar outro tipo de valor. 
Encarei a etiqueta que demarcava o preço de um saquinho com mini broas de milho, era como se o laranja gritante tivesse se tornado um salão, e o erre, o cifrão, o quatro, a vírgula e os dois noves dançassem algum ritmo festejantemente latino. Os noves faziam um joguete de passar pra cá, passar pra lá, voltar, rodopiar. O quatro, solitário entre uma vírgula e um ésse cortado por duas barras verticais, tentou puxar o érre para movimentos ritmados do corpo, mas foi negado, e se concentrou em assistir os movimentos dos noves, depois começou a se divertir com a vírgula, que ria a cada tombo do quatro. Isso se repetiu adiante, noutras etiquetas, e era incrível: os números mudaram.

Ainda na farmácia, antes do passeio pelo mercado de etiquetas mudadas, enquanto pagava pela barrinha de um nove nove, contei um curto trecho da história para a moça, foi meu modo de justificar por que fiquei boquiaberto ante o caixa eletrônico, derrubei meus pertences e arregalei os olhos: o simples parar no caixa eletrônico reconfigurou todo o sentido daquele dia, deixou de ser apenas mais uma manhã, ou mesmo a primeira manhã do ano que combina frio e chuva, para se tornar a manhã do dia em que caiu o meu primeiro salário após nove meses sem ter dinheiro pingando fixamente em conta, não esperava receber o pagamento naquele dia, e ao ver tal somatório de dinheiro (menos de um salário mínimo) atrelado ao meu nome, à minha pessoa, não nego que senti perversa emoção, convertida, no mercado de mais tarde, em um par de pão com tiras de queijo derretido em cima, sete fatias de mortadela ouro para recheá-los (pedi a mortadela, inclusive, por gramas, e não por fatias), um iogurte de morango, cem gramas de mini churros, cem gramas de pão de queijo, duas bananas prata e um bombom. Os números, representações de preços, mudam conforme os adquirimos e podemos pagar por eles, e isso, no demarcar das etiquetas, soa como uma festa, a perversa festa do capitalismo falido a nos proporcionar alegrias fugazes, mas um pouco saborosas - "Deve ter algum tipo de droga nessa mortadela ouro, que bagulho gostoso", gaguejei. 


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Memória & Movimento.


A internet contemporânea e as redes sociais virtuais nos fornecem excelentes dispositivos de memórias. Digo, vocês, usuários, como eu, sabem que todo dia aparece lá na grande rede social virtual o que você postou naquela data em anos anteriores. Às vezes são coisas ruins de lembrar, como que em três de abril de dois mil e treze publiquei um texto referente a um ocorrido no final de semana anterior, em que um conflito doméstico causado em razão duma "Amizade", vista por um lado da moeda como indevida, se fazia presente na grande rede social, e isso fez-me, acidentalmente, ficar desnorteado em minha própria casa, bater com a cabeça na pia e cair em sono confuso no colchão jogado ao chão da sala - tudo descontroladamente um "Acidente", como já havia ocorrido no meio de março daquele ano, e ocorrera outro no início de maio, e o Facebook sempre me lembra, ano a ano, de todos eles. No entanto, o dispositivo de recordações virtuais também traz à boca do estômago da memória sabores os mais límpidos e cristalinos com açúcar de confeiteiro polvilhado em cima e creme saindo por todas as laterais. Como que em três de abril de dois mil e quatorze - incrível a velocidade com que mudamos nossas vidas na juventude, talvez esse seja um dos traços do 'ser jovem' - saí todo serelepe da loja oficial do Marília Atlético Clube com um par de ingressos para o jogo do dia seguinte, ou mesmo, inverti a sequência lógica da coisa, em três de abril de dois mil e quatorze desembarquei na rodoviária daquela cidade. Foi curiosa a sensação ao 'ver' esta memória - lembranças são matérias não palpáveis, 'coisas da cabeça', que o dispositivo da rede social torna em 'quase' tocáveis - por meio da foto da rodoviária que tirei ainda de dentro do ônibus. Memória sensitiva sempre me puxa pelos calcanhares. Recordei-me da rotatória e da "Subidinha" que há nos últimos metros do trajeto, na via que conecta uma avenida, cujo nome já não me recordo, à entrada restrita aos ônibus. Recordações de quando viajava de madrugada, e acordava assustado com o ônibus diminuindo a velocidade, e ter de recolher meu cobertor correndo para descer antes do ônibus seguir viagem ou ir para a garagem. O dia em que, nesta situação, viajando de madrugada, desceria na parada anterior, em Vera Cruz, no entanto, cansado (voltava de São Paulo após alguma das etapas do processo seletivo para o mestrado) apenas fui acordar em Marília, aliás, apenas fui acordado na rodoviária final da linha, por um funcionário da empresa de ônibus, se fosse a linha que segue trajeto até Tupi Paulista, seria lá que me acordariam. A primeira lembrança que tenho da cidade, em si, do meu corpo, do meu eu em Marília, é na rodoviária - de formato peculiar: seria um OVNI, um chapéu mexicano ou de bruxa? - no começo de fevereiro de dois mil e oito, para matricular-me na universidade. Viajei de madrugada (eram seis horas de viagem) e lá cheguei junto do amanhecer de um dia de verão, entendi de pronto o que era o calor naquela região do estado, conheci o aroma de baunilha exalado pela fábrica de bolachas e uma das "Pragas anuais" da cidade, a infestação de gafanhotos. Rodoviária é movimento. "É assim a vida é movimento". E, talvez, por ter esse entendimento Dead Fishiano da vida que, hoje, nenhuma dessas lembranças teve sabor de 7x1. Não doeu. Não, não sarei dessas saudades - eu nunca vou sarar dessas saudades, já tomo isso como uma afirmação quase dogmática, mas, dessa vez, sairei da internet sem ter o coração dolorido. Não doeu, não machucou, não deu vontade de pegar a bicicleta e sair correndo pedalando Castelo Branco a dentro até a Marechal Rondon e depois pelos 94km da João Ribeiro de Barros até avistar a rodoviária. Não deu vontade de tentar arrumar qualquer emprego, bico, atividade remunerada e/ou acadêmica que o valha por lá e voltar, de ônibus mesmo, só com uma mochila e umas lágrimas lavando o rosto para o paraíso perdido de minha memória, o oásis de felicidade irrestrita em minha experiência no mundo. Já senti isso noutros momentos, é verdade que depois a coisa voltou, pudera, outras tantas refrearam o movimento que se esboçara (me parece que dessa vez não ocorrerá o mesmo). Por ora, a vida andou, anda, a vida se movimentou e os grilhões que, de certa forma, estacionaram tal libertação no passado recente, já foram superados, vencidos (preciso, inclusive, ir lá buscar o certificado). Hoje, três de abril de dois mil e dezessete, tenho outro percurso compondo a principal tarefa de minha semana, não é a coisa mais importante para mim, mas é relevante, está no curso dos acontecimentos planejados na linearidade dos investimentos que realizei na vida e vai me pagar algum dinheiro após trinta dias, o que, a considerar o período vivido anteriormente (de "Seguir o jogo" com poucas moedas) representa grande alívio. Já não há mais, especulo, motivos para me lamentar por uma rotina gostosa perdida: o dia a dia, a cada dia, volta a ser saboroso, não preciso mais viver à sombra das memórias de um "Outrora" de sabores mil frente a um cotidiano assassínico, fétido, chafurdantemente xarope. A vida é movimento, e, enfim, parece que as coisas voltarão/am a caminhar. Às saudades, à cidade, aos percursos, à rodoviária, ao estádio de futebol, à universidade, ao bar, às pessoas, existe um enorme banco, de madeiras nobres e bem envernizado em meu coração, e vocês estão nele sentados.