quarta-feira, 30 de maio de 2018

Poética da vida urbana - I

Subia uma rua que corta uma avenida quando avistei, lá em cima, no semáforo do outro lado da avenida, duas motos da polícia militar. Desciam a rua fazendo alarde visual (com luzes vermelhas piscantes, acesas em plena luz do dia) e um alarde sonoro crescente: primeiro uma sirene, depois buzinas, e então gritos de "Sai sai sai". Parados parelhos no limite da faixa de pedestres, dois carros, com dois ocupantes  nos bancos frontais cada. O corredor formado entre os dois veículos não era espaçoso o suficiente para que os policiais passassem com os seus, então, ao alarde sonoro foi adicionado o grito de "Vai logo caralho mano", proferido por um dos motoqueiros. Tão logo ambos motoristas dos carros movimentaram seus veículos, poucos centímetros para a direita um, e à esquerda outro, as motos, os policiais e os alardes sonoros e visuais causados por estes passaram, seguiram avenida adiante. Ficou o alarde dos ocupantes de um carro gritando com os do outro, e vice versa, por meio das janelas abertas. Quatro pessoas, duas dentro de cada veículo, ofendendo-se verbalmente, aparentemente debatendo de maneira acalorada e sem evidências possíveis "De quem era a culpa". Não viram que o semáforo abriu, e, ao alarde sonoro, somaram-se as buzinas dos carros parados mais acima na mesma rua. Enquanto o motorista do carro à direita escorregava o veículo lentamente a frente, e cruzava a avenida seguindo pela rua que eu subia, o responsável pelo que estava à esquerda ainda xingava os ocupantes do outro veículo. Ao ver o ocupante e temporário rival deslizar o carro, o segundo também o fez, virando à sua direita e seguindo pela avenida, na mesma direção seguida pelos barulhentos das motos


terça-feira, 15 de maio de 2018

A pretensa vontade de partir.


À lá Forrest Gump. Deu vontade de correr? E correu. Saiu correndo. A vontade passou, bastou, foi suficiente - e essa régua é extremamente subjetiva e cada um cada um. Importante é que correu. Viu paisagens distintas, sentiu sopros mais ou menos frios, mais ou menos secos, mais ou menos úmidos.
Subo na bicicleta e vou embora. É sempre essa a imagem que atormenta e/ou ilustra o pensamento com maior ou menor requinte cinematográfico. Quer dizer, é evidente que há presença de referenciais cinematográficos: se nunca fiz uma coisa mas imagino como é fazê-la acionando imagens, de onde vieram essas imagens? Muitas vezes, de filmes, como o Forrest Gump.
Faz tempo que não assisto a filmes. Perdi essa recorrência em minha vida. Na infância era mata tempo em férias, fosse na TV ou, sobretudo, no cinema. Na adolescência também, mas ao abrir o guia que vinha no jornal para escolher um filme, um cinema/shopping e um horário, entrou em cena a perspectiva do galanteio e dos beijos, de modo que muitas vezes as condições do ambiente eram-me mais interessantes do que as imagens ou roteiro em si. 
"O que você achou desse filme que foi ver?", "Ah, bom, muito bom", e os olhos estralados sem disfarce algum dos estrelados sabores de uma hora e meia beijando
Perdi a recorrência em ver filmes em plena era de facilidade para encontrá-los. Enquanto escrevo este texto, um N vermelho na barra de ferramentas do computador não me deixa mentir: basta abri-la para ter o universo que as revistas-guias de horários e salas jamais terão. Mas perdi a recorrência. Perdi a paciência. Deveras inquieto, perdi a capacidade de concentração. 
Nos anos de faculdade, ainda cabe recordar, o CineClube no centro da cidade era um evento bacana. O grupo de estudos de cinema e literatura igualmente (inclusive guarda-se a uma película cinematográfica o título de 'meu primeiro artigo acadêmico'). 
No primeiro daqueles anos, o mesmo da escrita do artigo, em que o acesso a computadores e internets era ainda restrito, dividi apartamento com um rapaz que baixava filmes, os gravava em DVDs e vendia para estudantes e professores. No apartamento, cerca de três centenas de DVDs com filmes diversos: além de os baixar e grava para venda, geralmente gravava uma cópia para ele próprio.
Um filme por dia? Nunca cheguei a assistir nesta frequência. Mas passar uma semana inteira sem assistir ao menos uma história filmada, isso não ocorria. 
E então bate aquela pretensa vontade de partir. Não seria ao certo uma fuga - a fuga em si, às vezes é algo pretensamente equivocado, que pede uma fuga para si. Não tenho por que ou do quê fugir, apenas vejo-me com frequência acompanhado da pretensa vontade de partir.
Vontade como querer puro, sem explicação ou reflexão racional. É aquilo que descrevi no começo: bate-me uma vontade de bater-me em retirada.
Tenho preguiça, também, de viver outra mudança em termos geográficos. Juntar tudo em caixas, contratar um caminhão, assinaturas e cartórios, documentos, loja de tinta e de materiais de construção para os necessários reparos, faxina em casa nova, problemas, corretores, proprietários. 
Calculo dez anos em dez casas distintas. Certo, houve casa em que passei três anos, o que não suaviza a lógica exposta acima, pelo contrário: se saí desta morada nos derradeiros dias do ano de 2011, e ela configurou-se como a terceira casa do período, concluamos que nos últimos sete anos foram sete casas. 
Uma mudança por ano. Algumas menos outras mais burocráticas. Algumas com mais outras com menos caixas. Algumas com mais outras com menos pessoas envolvidas. Algumas com mais outras com menos livre e espontânea vontade. 
Partir sem ter vontade também é bem ruim. Talvez seja pior do que ter vontade de partir mas não poder. No primeiro caso, você parte e deixa as sobremesas que ainda não serviram para trás. No segundo caso, você para e colhe no chão alguns detritos para distração.
É curioso como do desgaste de tantas mudanças, do cansaço antevisto por já me ver planejando mais uma, eis que brota a vontade de partir. Se fosse mais simples seria mais tranquilo, mas não é - digito e com o canto dos olhos vejo, por cima da tela do computador, a cerca de um metro e meio de distância, os três mais altos andares de uma prateleira de metal parafusada, para transportá-la é necessário desmontá-la e embalar as partes em jornal ou algo do tipo, em seguida é necessário, atividade que requer muita perícia, empacotar de maneira segura todos os parafusos, um mísero que falte e a prateleira perde totalmente sua função (experiência vivida), em seguida é necessário acomodá-la no carro ou caminhão ou coisa do gênero que levará as coisas todas da casa velha para a nova (que se tornará velha para os sentidos sabe deus em quanto tempo, isto é justamente a questão subjetiva, o cada um cada um) então é necessário realizar tudo ao contrário para tê-la novamente erguida. Canso só de imaginar.
Talvez eu canse pois esse filme eu já vi muitas vezes, e imagino uma cena filmada por meus próprios olhos, e não por câmeras e editadas e roteirizadas e etc - a lembrança também é uma forma de imaginação? 
A cena é a do Forrest Gump correndo, que materializo imaginativamente nas minhas pernas remexendo-se sobre os pedais de aço que movem a correia e fazem mover todo o meu corpo, em um deslocamento mais ou menos sereno. Dessa imagem não canso previamente, pois nunca a vivi. Não só não canso, como nutro, por vezes sem perceber, essa pretensa vontade de partir.


quarta-feira, 28 de março de 2018

Sereno pouso.


Este texto só faz sentido com esta música tocada junto.
Deitado de olhos fechados. Corri em passos saltados pelo curto chão de azulejos sujos e caí no colchão, deixei o corpo cair, estatelar, sem medo do choque que ocorreria com algum joelho ou tornozelo ou dorso ou crânio ou tábua ou quina ou demais objetos largados inadequadamente no móvel feito para dormir. Deixei-me cair suavemente no colchão da alegria. Caí e fiquei ali, deitado de olhos fechados. "Presta atenção nisso que vai acontecer...". E começou a acontecer. Um caminho conhecido, daqueles tão conhecidos que já temos um ponto de parada favorito - ou um ponto/restaurante que é de posse da empresa de ônibus e, invariavelmente, você terá de parar, descer, ir ao toalete, matar o tempo, fumar um cigarro, encontrar conhecidos que percorrem o mesmo trajeto voltando para a mesma cidade universitária. Conhecer os caminhos do próprio pensamento é muito bom. Procurei as paradas que já conheço no aparente caminho repetido. Precisei me levantar, voltar pro começo aquilo tudo que acontecia pois o começo é primordial, os primeiros passos na caminhada, é sempre por meio deles que começo a criar minhas raízes nos espaços em que passo o olhar é quase puro perante o que nunca viu. Mas o primeiro olhar, os primeiros passos, eles são fundamentais e procuro não me esquecer deles. Preste atenção neles! Voltei pro começo, e outros passos, e saltos, e pulo e o corpo caiu deitado no colchão novamente, e novamente procurou de olhos fechados o caminho conhecido: "Vamos para um lugar bom, vamos para um lugar maravilhoso...", é sempre assim que começa. Penso com tanta força, com tanta vontade, imagino com tanta satisfação, que quase pude sentir o vento batendo no meu rosto ao adentrar a Rua Ipiranga e pisar firme nos pedais da bicicleta. A rua está escura, é noite, vazia, poucos carros. Pedalo, espero e saboreio um beijo. Um chinelo de mel enfiado em minha boca e envolvendo todo o corpo. Às vezes dura cinco segundos, às vezes dura minutos. De súbito, mais vento na cara, é de dia, mas sinto-me tão desconfortável, a calça aperta os calcanhares e se enrosca na correia. "Tudo bem, é aqui pertinho". Entro pelo corredor e vejo todas as portas abertas, quase consigo ouvir o som do falatório típico dos melhores ambientes para se aprender. "Cheguei cedo", pensei, sentado na sarjeta, vendo a Serra escurecer, as luzes da avenida serem acesas. Minha mala ao lado do pé, a mochila repousada no colo, "E se eu for no mercado pegar uma cerveja?", fico entre o vai não vai, o quero não quero, enrolo-me com alguma frivolidade pensamentosa, até que chega alguém. Se junta à mim ou abre a porta e começamos mais uma noite. Chego em casa e faço um jantar, coisa simples, não muito rápida, mas também não muito rebuscada, e também, sempre que possível, sem miséria. Saboreio a simplicidade dos dias cotidianos na rotina atual. Em passos saltados corro pro colchão, saboreio e saboreio. Deitado de olhos fechados, buscando na mente refúgios, locais agradáveis - "Para que lugares paradisíacos minha consciência consegue me levar a imaginar?". Saboreio a simplicidade dos dias cotidianos na rotina atual.









sexta-feira, 9 de março de 2018

Não fuja!



Sanduíche murcho,
Queijo azedo,

Pão duro,
Apresuntado seco.

Café requentado,
Sabor metálico,
Supra adoçado,
Quase estragado.

Casa desarrumada,
Mesa bagunçada,
Sujeira espalhada,
Água cortada.

Banheiro alagado,
Vassoura molhada,
Rodo quebrado,
Roupa mofada.

Cadeiras espalhadas,
Livros encostados,
Caixas rasgadas,
Cêdes empoeirados.

Garrafas vazias,
Roupas encardidas,
Imundas pias,
Panelas perdidas.

Não tema,
Não queime,
Não destrua,
Não fuja!


quinta-feira, 1 de março de 2018

Breve nota sobre as mudanças no significado do termo "Amizade".


-Você conhece fulano?
-Conheço!
-Pode crê, de onde?
-Ah, do Facebook.

O Facebook (e as redes sociais em geral, mas o Facebook ainda tá no topo), no meu entender se tornaram presenças de circulação e interação social tanto quanto (ou mais, mas nos mantenhamos no "Tanto quanto") espaços físicos. O Facebook é um lugar mesmo, espaço para encontros, discussões. Entrar no Facebook e pescar assuntos, comentar fotos, caçar encrenca, trocar galanteios etc é uma realização semelhante ao ir à praça (ou ao shopping, ou ao rolê, ou ao estádio etc): nunca se sabe quem se encontrará, com quais assuntos terá de lidar etc. "Uau, uma foto de Fulano, quanto tempo que não vejo ele postar nada!". Dá-se um like, um comentário gera uma ou duas respostas. O que é isso se não o recorrente estar perambulando pela rua e encontrar um conhecido ou um amigo de quem se foi mais próximo em alguma época da vida e trocar duas ou três palavras e perguntas/respostas? Aliás, é exatamente neste ponto que vem meu destaque: esse pomar de palavras disponíveis para definirmos nossas relações sociais recebeu mais um item: o "Amigo de Facebook". Será que em alguns contextos, penso, no de pessoas que tem mais interações virtualmente ou com pessoas que moram distante no mapa, a "Amizade de Facebook" já se tornou puramente "A" amizade? Vamos pensar sobre a profundidade destes termos?
Penso no exemplo de outros termos que passam por transformações em razão de o modo de nos relacionarmos com as pessoas e o mundo tem passado por pesadas transformações. 
Ocorre-me o ato de "Ir às compras" ou "Fazer compras". No caso do mercado, aquela compra rotineira e alimentícia, me parece que a virtualidade ainda não venceu. Mas, em outros termos - roupas, por exemplo - o ato do "Ir comprar", me parece, ao menos para um estrato social - isso tudo que está sendo discutido aqui diz respeito a uma fatia da sociedade que tem acesso à internet - tem se deslocado quase que integralmente para a internet. Imagino que as pessoas de uma determinada faixa social (e uma pesquisa sociologicamente profunda sobre isso seria muito interessante para entendermos quem é esta população) saiam pouco para tal. Pois, além de terem acesso à internet, não precisam comprar o barato do barato do barato, este, encontrável apenas nas regiões de comércio popular que tem por aí; mas, segundo a Deusa, o wish é mais barato que qualquer "Lugar".
Daí não ser estranho que pessoas que têm vivências de mundo distintas, compreensões de mundo distintas, entrem em choque por conta de concepções distintas de mundo. Por exemplo, esses dias fiquei chateado pois um dos amores que carrego na bagagem desta vida não tem respondido meus contatos virtuais. "Que é isso? Será que nossa amorzade acabou para ela?". Mas, compreendo e concluo, pensando neste caldo todo com um exemplo prático-vivido, que para mim ainda somos efetiva e fortemente amigos, pois todo dia "A vejo" nas redes sociais, ou seja, para mim, sermos "Amigos de Facebook" ainda carrega o peso e a profundidade do "sermos amigos", puramente. Embora, para ela, aparentemente, isto seja um tipo de relação de menor expressão e/ou que mereça menor dedicação. E isso é ok, pois, não necessariamente temos que ter as mesmas concepções de mundo ou sobre o que é uma "Amizade" e uma "Amizade de Facebook". Sério mesmo. Te amo pra caralho ainda! E podem cortar a internet do mundo e eu nunca mais ver nada sobre vocês, pode ocorrer da crescente onda reacionária promover algum tipo de guerra e a gente nunca mais se ver. Mas eu vou continuar amando as lembranças que tenho de vocês, e, consequentemente, continuarei os amando, pois se os amei com a intimidade peculiar única da vida - virtual ou concreta - em qualquer momento da vida, eu irei amar vocês sempre, pois a vida é um grande presente estendido. 
Ps.: mas as saudades, ah, as saudades... diria que a virtualidade não mata saudades, mas putz, quanto aroma em conversar com alguém com quem há muito tempo não se encontra presencialmente (coisas da vida) e saber como está a vida de pessoa e imaginá-la nesta vida e ficar feliz (ou triste) por saber o que tem ocorrido. Nada supera um abraço, um afago, uma breja. Mas já que não dá para tais ocorrerem, bem, vamos lá trocar nossas humanidades da maneira que é possível. Um problema, e aí penso nisso com preocupação, é quando o "Não quero ir pois tenho a internet" se torna preponderante. Tá vendo vó? Não sou tão moderninho assim. A grande verdade é que eu queria juntar todas as amizades e amorzades mais pesadas e sinceras desta vida e morar numa comunidade rural com vocês.