sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Moleque maroto é babaca ou bobo?

Moleque maroto deitou-se na cama pitando calado.
Escuro. Escuridão total. Silêncio nenhum.
Nunca.
Silêncio longe de mim.
Esta noite revisitei-me. Um museu.
Disperso por anos a fio...
"Isso aqui... faz metade da minha vida já...".

Moleque maroto deitou-se na cama calado.
Um minuto que não chegou a dois.
Longe disso, de mim.
Nunca foi assim,
Por que haveria de ser justamente agora?
"Fico feliz por nos ver por aqui,
Desbravando esses horizontes todos,
Conquistando algumas coisas,
Não são grandes,
Mas não são as mínimas,
São coisas, e isso me basta
(Vide o nome que carrego/criei)".

Eletricidade sempre foi assim.
Um crânio rachado,
Uma testa cortada,
Braço retalhado,
Ossos afetados,
Pessoas machucadas,
Corpo cortado.
Movimentos falhos,
Por toda vida.

Entendi em algum momento do qual me recordo bem o que é 'ter conduta' e o que é 'ser conduta' e entendi em qual lado quero sambar sem medo entendi e isso contribuiu para que medo a medo esmorecessem os temores quase que por completo para que pudesse-se sem deixar de ser moleque maroto brincalhão "Cuidado com o barulho do portão" (dizia meu avô) seguir a vida a pleno pulmão.

Pitando calado na cama deitado maroto moleque,
"Vai dormir,
Sem fantasma pra perseguir,
É melhor ser bobo,
Que babaca".
 
 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O auge obscuro que hoje se faz.


Esqueci a porta do micro ondas aberta. No meio da sala, sentado na cadeira de praia - a qual foi apelidada de "Cadeira Presidencial", por ser o assento mais confortável da sala - me perdi em pensamentos encarando a luz acesa e a porta com micro furos. 
O século vinte foi aquela avalanche de inovações no ramo das tecnologias, dos eletrônicos, das telecomunicações e afins. Concordo com as afirmativas que dizem que o mundo, as distâncias, ficaram menores depois da invenção do telefone, da televisão, da internet, do celular... 
Fechando as notas do bimestre em que estudei com o nono ano a ditadura militar no brasil, fiquei espantado com as notas altas. "Será que fui muito 'mão leve' nas correções?". Revi provas, alguns trabalhos e vi que não: a rapaziada entendeu os problemas, as divergências, as tretas e as resoluções. Alunos que tem sabor pela baderna - pequenas bagunças durante as aulas - entenderam que em uma ditadura não há espaço para a sorridente piada com o colega ao lado. 
"Se estamos no auge dos tempos, por que tanta angústia?". É meu caro Rodrigo. Estamos sempre no auge dos tempos. Meus avós se surpreenderam, lá pelo ano 2000, ao atenderem o telefone em casa e ser o filho deles, falando de Buenos Aires, em um telefone celular: "Parecia que ele estava ali na esquina", falou minha avó na época. A gente sempre acha que o nosso tempo é o auge dos tempos.
Então, parei para ler as notícias. Parece uma confluência (talvez dialética) perniciosa, mas não me furto do raciocínio: o desenvolvimento dos meios de telecomunicação foram deveras úteis para que um acontecimento local ganhasse proporções globais, imagens de massacres ditos desumanos correram o mundo 'ao vivo' em 1994 (o que não ajudou muito em sua resolução, apenas ficou-se sabendo), o desenvolvimento dos meios de telecomunicações, agora, cria os novos massacradores, eleva as probabilidades dos torturadores pois, putz, os meios de comunicação (e os juristas também) criaram já uma sentença.
O presidente da quase ex potência mundial é famoso pois tinha dinheiro suficiente para controlar os meios de comunicação. A mídia que controlou os rumos do país, decide quem será o próximo presidente. Plantaram uma semente de araçá e esperavam colher  alecrim para temperar os legumes, agora precisam forjar um ser mal cheiroso - mas famoso, está na TV há 20 anos... - para que sigam temperando o nosso tempo, a nossas vidas, conforme desejam alguns poucos.
A massa pode ser reprovada no exame de habilitação veicular por deixar o carro morrer, ou esquecer de indicar as setas necessárias. A massa jamais será reprovada por errar o teste de baliza, ela é boa como manobra.
Na esquina da rua em que moro desde agosto tem um terreno grande, com uma área construída bem ampla, mas, chuto, dois terços do terreno serve como estacionamento para carros igualmente grandes. Gente de alta cúpula, profissões que não dizem "Sim, senhor", apenas o ouvem. E, imagino, pessoas que se encontram na esquina da rua em que moro para decidirem de que maneira temperarão com bons aromas o rapaz a ser arrumado para que o que deve dizer se torne palatável, de que maneira achar as provas corretas contra o já definido culpado, de que maneira podem se valer do auge dos tempos para que se mantenham no auge no momento em que a montanha russa começa a descer a sua mais íngreme ladeira. 
Eu bebo muito. Quando tinha dezessete anos isso era uma virtude, hoje em dia é um problema. Tenho consciência disso. Todos meus amigos, minhas amigas, meu amor que passam por isso tem consciência disso com relação às vidas deles. Ninguém acha legal contar moedas para comprar bebida no fim do mês, mas ninguém quer deixar de gastar notas com bebidas desde o princípio do mês. A questão é que beber é um problema, mas, hoje em dia, neste auge nefasto dos tempos obscuros (amanhã virá outro, e depois outro...) beber todos os dias é o menor dos problemas. "Você prefere morrer de cirrose aos trinta e cinco ou enclausurado num porão todo fodido, arrebentado, torturado, esquecido, nome queimado, ossos derretidos, por conta de suas convicções políticas?". Ainda farei essa pergunta pra galera.
Enquanto converso com um amigo pela internet, a porta do micro ondas ainda aberta, a luz ainda acesa, me lamento: "É uma pena que o Brasil vai acabar em 2018, estava com planos muito bacanas para os próximos anos". Deu vontade de enfiar a cabeça no micro-ondas ligado, potência máxima, e deixá-lo girando até que meus miolos explodam. Depois alguém resolva as pendências com a imobiliária por mim, por favor.
 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Teoria da Salada.


Questão:
Quando se coloca salada, composta por distintos itens (por exemplo, cenoura crua em rodelas grossas, couve manteiga em tiras grossas e pepino em rodelas finas) em um prato ou refratário mais ou menos plano, e se tempera a salada, a ordem dos elementos no refratário interfere na qualidade/intensidade dos temperos em cada um dos alimentos?

Desenvolvimento Prático da Questão:
Me parece que a ordem dos elementos de uma salada pode interferir na composição do sabor final de cada alimento, variando conforme a exposição aos temperos lançados. No caso do exemplo acima mencionado, as rodelas finas de pepino foram colocadas diretamente sob a superfície do refratário plástico (dito "Tupervare"), acima delas as tiras grossas de couve manteiga e, por cima das tiras, as rodelas grossas de cenoura.
Observo que as rodelas de cenoura exercem pressão, por meio do peso, sobre as tiras de couve, o que gera certas "Montanhas" de couve no refratário - algo que se assemelha a esta bela paisagem no município de Cambuí/MG:


Temperarei a dita Salada com vinagre (um líquido pouco espesso), azeite (um líquido denso e espesso) e sal (um pó branco, cristalino, fino), e, parece-me, que a "Formação Geográfica Montanhosa Couvística", favorecerá que o vinagre, menos denso e espesso, escorrerá com maior facilidade até o pepino - gosto do pepino trabalhado no vinagre. 
O azeite, por sua vez, líquido grosso e denso, dificilmente passará pelas folhas grossas de couve, some à espessura da folha de couve, seus 'veios', que possivelmente impedirão que boa parte do azeite escorra. 
Sobre as rodelas de cenoura, reinando triunfantes como o único tom vivo e não pertencente à escala do verde (cor que vocês sabem que eu desprezo) na tigela, cabe mencionar sua composição salínica. A cenoura é um legume adocicado, requer mais sal para que não transforme a salada - dita experiência sal(g)ada para abrir o almoço - numa experiência "Sal(g)adoce" ("Saladoce", a rapaziada da gourmetização deve usar essa palavra). Não gosto da cenoura muito doce. Por isso, me parece que polvilhar o sal por cima de todo o ecossistema criado na tigela, favorecerá que a cenoura absorva maior parte do sal ou que eu direcione mais sal por salpicada para cada rodela, o que favorecerá que o sal se misture ao azeite e ao vinagre e escorra por entre as tiras da couve.
Um entrave, no entanto, há na relação do pepino com o sal. Parece-me que pouco sal chegará a ele com esta disposição dos alimentos na tigela e na colocação dos temperos - e gosto do pepino salgado e envinagrado.

Conclusão: 
A ordem dos alimentos conforme colocados no refratário coordena qual será o grau de intensidade de tempero nos alimentos. Chegou-se a tal conclusão após experimentar-se a salada preparada e temperada conforme disposto acima. Menciona-se, por outra via, que deixou-se os elementos componentes do tempero escorrendo e agindo por cerca de dez minutos na salada - período em que se estruturou o artigo que aqui se apresenta. Por fim, uma vez provada a salada, notou-se que havia, como suposto, pouco sal no pepino, o que gerou certo desagrado sentido a partir de minhas papilas gustativas. Para contornar tal problemática, em um primeiro momento aplicou-se mais uma rajada de sal sobre o ecossistema saladístico e, em seguida, com a força depositada sobre o garfo, mexeu-se toda a mistura.

Teoria sobre temperamento de Salada.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

À nossa humanidade!


Esse ano foi difícil, complicado. Sem emprego, sem perspectivas por um bom tempo. Nossos encontros, cafés, almoços e pizzas no verão chuvoso, que se estendeu até o fim de março, eram pequenos oásis naquele meu cotidiano seco, arrastado, desocupado que você tão de perto acompanhou.
As histórias que me contava, aliás, que sempre me conta, de tempos distantes, épocas de outras "Crises" - "Não tinha combustível na década de 1940" - e a recuperação delas, proporcionavam-me boas esperanças, um bom conforto em meio ao caos - e não nego que vez ou outra a visita para o café ou "Só uma passadinha" foram estratégias para acalmar o coração.
No fim de março, junto com o fim do verão, as coisas mudaram. Voltei a ser, no sentido prático da palavra, professor, e passei a frequentar Mogi das Cruzes, cidade que é cenário de muitas das suas histórias de infância.
Passei a frequentar espaços que você cita em memórias. A escola que seus irmãos mais velhos frequentavam, da qual um deles certa vez tentou, sem sucesso, escapar de um dia de aula. 
A rua em que você morou - a sua casa, em que se apoiava na janela para conversar com os professores de francês que passavam pela calçada e lhe ensinaram os primeiros "Oui's", já não existe mais, virou um estacionamento. Mas não me privo de sempre que passo por lá imaginá-la, em passos de criança, perambulando em brincadeiras por ali (talvez da forma como eu, por tantos anos, perambulei por brincadeiras na "Sua rua").
Passei a vivenciar, também, situações que lhe são tão vividas nos relatos frequentes dos tempos de professora: "Tive que aplicar uma prova encardida...", "Estou com os diários de classe atrasados...", "Vou com os alunos em uma excursão...".
Por outro lado, e isso me chateia, deixei de estar próximo de ti nos afazeres do cotidiano atual. A agenda semanal de sobe e desce para fazer um monte de coisas sempre. Os olhos piscados em tom de deboche para a filha que sugere que pare de dirigir, e que se tornam olhos de deboche para mim também, pois eu concordo com ela, embora te entenda... Deixei de presenciar também os risos e as novidades: o que aconteceu na última viagem, quando será a próxima, para onde será o próximo passeio, qual a novidade na lojinha...

Esse ano começou difícil, não está fácil - e você sabe que eu acho que vai piorar, em muitos aspectos, nos anos próximos - mas melhorou. E melhorou muito, pois, a sua humanidade, do alto dos 39 anos que completa neste Treze de Novembro, formada ao longo de passados, presentes e futuros distintos (para onde a próxima viagem?), ajuda a formar a minha e a encarar esse mundo sabendo usar bem os poucos coringas que caem na mão.  
Feliz Parabéns, Vó.




terça-feira, 7 de novembro de 2017

Panela de pressão.


Conhecer medos, criar receios. Em contrapartida, como humano dotado de sensibilidade e sapiência, criar refúgios, estratégias para não ser atingido pelo que se sabe periculoso. 
Foi em 2008, saía do apartamento em que morava enquanto o rapaz com quem eu o dividia fazia feijão. Ou grão de bico. Fechei a porta, do corredor do condomínio ouvi um estrondo. Voltei, abri a porta, e vi o rapaz acuado na sala. 
Até então, na minha cabeça, "Explosão de panela de pressão" era papo batido, balela, coisa dos tempos de panela de pressão que funcionava à manivela, sei lá ué...
Junte uma péssima lembrança à conveniência, preguiça e um teco de desdém pelo que se diz "Saudável", e nunca usei panela de pressão. Seis anos de universidade em que comia feijão apenas no bandeijão (no nosso campus o chamávamos de "ErriÚ" mesmo, sigla para Restaurante Universitário). Três anos entre a casa da mãe, do pai, como filho sem nenhum espírito santo, que me contentava em comer o que eles faziam - menos por preguiça de cozinhar e mais por impedimentos de usar as cozinhas deles: "Você faz muita bagunça", me diziam dum lado, "Sua comida é gordurosa demais", do outro. 
Mas então ocorreu, e, uma vez consolidada a vontade tantas vezes desejada de tornar à autonomia do lar sem progenitores; uma vez retomada a vida sem bandeijões ou Cínthias (louvável nutricionista do ErriÚ Mariliense) para ter acesso à feijões sem precisar cozinhá-los, foi inevitável: após vinte e oito anos de vida, precisei aprender a manusear a panela de pressão.
"Que depressão...", era o bordão do apartamento que vivi entre 2009 e 2011, à parte algumas épocas, período de longas depressões, movimentos depreciativos contra nós mesmos...
Quando abro a geladeira e vejo que se acaba o feijão temperado, abro o freezer e vejo que já não há mais nenhum ex-pote de margarina, tornado em recipiente para preservar os icebergs marrons de feijão cozinhado, exalo um longo suspiro: "Chegou, novamente, o dia da panela de pressão... E que depressão!".
Recordo-me dos apartamentos de 2008, de 2009. Respiro fundo e sigo em frente. É a panela apitando em cima do fogão, e eu refugiado num canto distante. A casa é pequena - das nove em que já morei na vida (contei hoje), talvez seja a menor - mas encontro um canto distante. E fico lá/cá, refugiado em minha estratégia segura, faço minha parte para não ser engolido pela des-seleção natural: caso ela exploda, creio que daqui não serei atingido.
Conto minuto à minuto, já se passaram vinte e seis, mais quatro e a desligo, amém! Nada consigo fazer ou criar. Trabalhar, pensar, me concentrar. É tudo impossível, absurdo icogitável. São os ouvidos ligados no barulho que me recorda as cachoeiras de Brotas entre 2011 e 12, as máquinas das fábricas nos Distritos Industriais da vida urbana. 
Três e vinte e oito, volto a ser ateu: vou desligar a panela de pressão.