quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Da nostalgia ao caos.


Salgadinho em cor de amarelo escuro/marrom claro que é massa de milho em formato circular com um furo no meio e sabor artificial de bacon em pacote de papel laminado pequeno na largura e desproporcionalmente grande na altura. Eu sei que ao ler o parágrafo acima você visualizou o pacote de salgadinhos a que estou me referindo. Talvez você tenha até sentido em sua boca o sabor artificial do bacon, o triturar duro de seus dentes contra as pequenas argolinhas salgadas. Talvez tenha até sentido na língua a textura do pozinho que dá o tempero artificial ao quitute. Talvez tenha se lembrado de alguma situação específica em que comeu este petisco - talvez a única, talvez imagine de que sabor estou falando. Olhei-o na prateleira do mercado e salivei. s a l i v e i. Salivei por meio de meu cérebro, meu corpo, minhas memórias, alguma sensação pitoresca e quixotesca (tamanho a desventura do sabor de lembrança que me corroeu). Era dois mil e oito e por alguma razão quando ia de Marília para São Paulo não pegava, no terminal central, o ônibus direto para a rodoviária, mas sim um que me deixava próximo dela e mais próximo ainda de um mercado onde, em geral, quase sempre, eu comprava esse salgadinho para degustar ao longo da viagem. Depois de comprar o salgadinho ia andando até a rodoviária. Olhá-lo na prateleira hoje foi como tomar um raio na cabeça em praia de faixa de areia larga em tarde de chuva tenebrosa. Em uma das vezes, não me recordo ao certo qual, mas devo ter isso anotado em algum caderninho do ano, fui comendo o salgadinho contando argolinha por argolinha, o intuito era o de registrar quantas argolinhas vinham no pacote. É evidente que não me recordo do número. Porém, no tédio da estrada - do ônibus que era sempre frio, que sempre tinha som ambiente de roncos, às vezes transmitia filmes nos televisores anexados no topo dos bagageiros internos, da parada em uma loja de conveniências de altos preços mas de vários encontros pois muitos estudantes viajavam nestes ônibus frequentemente no mesmo horário - fui contando, argolinha por argolinha, e depois, tendo um número total de argolinhas, o dividi pela quantidade de gramas do pacote, e fiz diversas outras contas a partir daquele número. Eu nem curto matemática, mas depois vou procurar esse caderninho. Nunca na minha vida quero esquecer das sensações daqueles dias. As noites em claro achando que seria boa ideia pegar o ônibus das 23h59 para chegar às 5h30 em Marília e ir direto para a aula na segunda-feira. As tardes após a aula nas sextas-feiras voltando por conta de algum feriado ou evento do final de semana. As manhãs após passar a noite em claro em casa pois já havia percebido que passar a madrugada acordado no ônibus era menos rentável do que passá-la desperto em casa e, posteriormente, por toda a manhã, dormir no ônibus (e acordar na altura de Bauru, às vezes até mesmo Garça, e ver aquele infinito de plantações de café em verde transgênico ao redor do ônibus; ou mesmo da época em que Bauru, Garça e Vera Cruz eram nomes apenas de paradas do ônibus, e não locais em si, que conheci, andei, vivi). As madrugadas em que, é, não teve jeito, tive de passar desperto no ônibus para chegar em Vera Cruz na segunda ou terça-feira cedíssimo para dar a primeira aula na escola - não quero esquecer nem da madrugada em que fui acordado já na rodoviária de Marília, antes do ônibus ir para a garagem após perder no sono (e ajudar a compor o som ambiente de ronco) e perder a parada em Vera Cruz; tampouco da manhã no tão longínquo dois mil e nove (de desventuras amorosas e amizadinosas ao desbravar o Jardim Marília e o Alto Cafezal), em que o motor do ônibus quebrou em algum ponto entre Bauru e Marília, e nós, passageiros, permanecemos por quase duas horas ali, na beira da estrada, esperando que a resolução do problema viesse sob a forma de mecânicos e um ônibus vazio. Não quero nunca esquecer destas sensações, destes momentos, daquelas apreensões, tensões, explosões, desejos, viagens, tardes, manhãs, noites, madrugadas. Não quero, e não posso: todos esses sentimentos compõem a minha humanidade, e foi ali que conheci e experimentei muitos deles.

 

domingo, 20 de agosto de 2017

Adubo. Adulto. Beijo.


Entendi que quando se opta por viver partes da vida entre locais distintos, os trânsitos geográficos e temporais se tornam referenciais distintos: de épocas, de pessoas, de locais, de idade etc. Elementos diversos que se encontram e se afastam com o caminhar inevitável do tempo, se você está transitando entre locais então, fica mais fácil ainda de demarcar a relação "Época x Local". Por exemplo: em 2011 morava em um apartamento em Marília, o primeiro semestre junto do Manolos, o segundo sozinho; o primeiro semestre foi a segunda metade em um período de um ano sem beber, foi a época em que comecei a me movimentar artística e coletivamente junto de outrxs, conheci gente nova. Foi uma época de movimentação muito interessante. 
No entanto, esta época, enquanto cruzamento de vários fatores, passou, entrou para a história das vidas. Tanto por conta dos distintos rumos tomados pelas pessoas, quanto pelo fim da existência de alguns espaços, e, falo por mim, pois dali vim pra cá (mudei as geografias de minha vida) e estou prestes a realizar outra dessas mudanças. 
Ocorre que, em razão de toda a sobreposição que há entre tudo o que se viveu - o que somos hoje é produto de aceitações e negações do que fomos, vivemos outrora - aquela geografia, aquele contexto soam tão distantes. Seis anos avoados. E o que assustou-me em pleno amanhecer de domingo é que naquele contexto eu já era adulto. 
Nas lembranças que já considero como antigas, eu já era considerado adulto, já me via desta maneira. Isso foi adubo, alocado na superfície do cérebro para esvoaçar pensamentos por todo um dia.
Não que seja uma surpresa, longe disso, mas... interrompi a escrita, "Qual o problema em se perceber a si mesmo em distintos microcontextos dentro de um contexto maior?". Desci a rua para ir até o caixa eletrônico ver se o salário havia caído, e a questão se elucidou em minha cabeça - já o que fui ver propriamente, bom, voltei para casa sem comer churros.
Sem pressa alguma, o que envolveu estacionar por alguns segundos em frente a um colégio, assisti os jovens saindo de mais uma tarde de aula. Atrás de um orelhão, uma garota e um garoto conversavam com risos e proximidade nos rostos, a poucos metros, três ou quatro meninas assistiam a cena.
"Vai logo Larissa", "Beija ele Larissa", "Larissa, a gente tem que estar em casa até as sete e vinte, anda logo!", foram algumas das frases que ouvi, e que foram suficientes para catapultar-me no tempo e nas sensações - era dia dos namorados.
Ainda me recordo de quando este tipo de tensão pegava-me pelos cabelos. Eu e uma jovem em um pequeno pedaço de chão (talvez dois metros quadrados) atrás da quadra descoberta do colégio, enquanto as amigas vigiavam para ver se vinha algum inspetor, alguma professora. "Vai logo Gabriel", "Anda logo Fulana". 
Ao entender a cena em que estava envolvida a Larissa, entendi parte da questão - ou acho que entendi. 
Me parece comum encararmos com certa "Irrelevância", "Descrédito" ou mesmo "Desdém", vivências de nossa juventude, como fossem questões menores em nossa vida. Como fossem meras passagens para o maravilhoso mundo de realizações e conquistas adultas - em que você sua sem poupar-se para trabalhar, mas o quilo de sal perde o ônibus, e se atrasa. 
Recordei-me da tensão, do sentimento, do "Selinho" que foi interrompido pois um inspetor surgiu na escada. Ponderei: se tornou tão comum em minha vida trocar beijos, que a tensão, a pressa, as estratégias para tal se perderam naqueles tempos de proibições sobre os desejos - talvez tidos como "Precoces" pelos proibidores.
Naquela época eu imaginava que num futuro distante eu beijaria bastante e sem maiores impedimentos, mas não conseguia visualizar essa possibilidade, pois tudo era novo. As mãos suadas, o corpo trêmulo ante o desconhecido - lembro de quando me disseram, na quinta série, que para beijar se usava a língua e fiquei em choque.
Hoje em dia consigo visualizar muito do que ainda está por vir, pois, parece-me, entendi o assunto da linearidade da vida - a qual, parece, não deverá mudar muito conforme as variações geográficas e contextuais que ainda estão por vir, não que eu não espere mais ser surpreendido. Consigo planejar, consigo visualizar, as perspectivas são (quase) palpáveis e muito concretas pois, em meus exercícios de planejamentos, dialogo com o que já é conhecido; o que já foi vivido lança luzes que ajudam a iluminar o futuro - e esse é um dos incalculáveis valores de se estudar história e, num linguajar psicanalítico, "Se autoconhecer". 
Como o ato de beijar, dissipado das tensões e das proibições, tornou-se ato recorrente, cotidiano. O que assusta, no entanto - e talvez isso ocorra por não ver com desdém nenhuma dessas épocas - é certificar-me de que "Caramba, já tem tanto 'tanto tempo' corrido nessa vida, que mal posso esperar pelos próximos tantos".
Assim como mal posso esperar pelo fechamento obviamente clichê deste texto, mas, igualmente, evidentemente repleto de sentido: "Já morei em tanta casa que nem me lembro mais".

Entendendo diferenças [Ou "bastante"].

Ao sair do Maktub no domingo a tarde (20/08) em que saí de casa para espairecer sobre as tretas do mundo ao dar um gole numa bavaria gelada e ouvindo Explosions entendi a sutil/ampla diferença entre Querer morrer fazendo algo que se gosta bastante e Viver bastante para fazer bastante algo de que se gosta bastante
Depois, mais para a frente na avenida, ao me incomodar com a altura do som, o abaixei, e pensei que Entendi a diferença entre querer ficar surdo ouvindo uma banda que se gosta bastante e Querer preservar os ouvidos para ouvi-la por muito tempo.
Entendi várias diferenças de aproveitamentos vido-temporais, e entendi de qual parte quero participar: da que vive bastante para fazer bastante as coisas de que se gosta bastante pois não tem nada mais legal do que fazer bastante as coisas de que a gente gosta bastante. 

 

sábado, 29 de julho de 2017

Ponderações sobre medos.


Medo é sensação complicada, complexa. Tipo de coisa que nos acompanha por toda a vida. Talvez seja o "Lado escuro da lua" do complexo mapa de sensações que temos/somos. Medo. 
Recordo-me duma situação que vivenciei, em que um garotinho de três ou quatro anos viu um gato pela primeira vez. Quando lhe falaram da presença de um gato animou-se em conhecer o animal, no entanto, quando se viu frente a frente com o felino, seu corpo lhe deu como resposta a vontade de ficar longe (tratava-se duma sala relativamente grande, portanto, se o gato estava na ponta de um sofá, o garoto ia para a ponta oposta de um outro sofá). Olhando o gato com muito temor, seu corpo lhe deu como resposta uma tremedeira, a qual o garoto verbalizou: "Eu acho que tô com frio!". Medo. Ele estava ali, sem entender, conhecendo a sensação que comumente classificamos como "Medo". O "frio" era seu único modo de interpretar a famosa "tremedeira" até então.

Existem 'medos' e 'medos'. 
Até bem pouco tempo atrás meu medo era acordar e ver-me viver mais um dia sem ter o que fazer. Digo, desde que enfiei na cabeça que sempre explorarei o mínimo lampejo de ideia criativa que possa se tornar ideia material, sobretudo artisticamente, sempre tenho o que fazer. Mas chegou uma altura lá por março deste ano que esse ritmo para os dias já não bastava. Precisava de interações sociais mais amplas, de contatos, de uma rotina temporal e, evidentemente, de dinheiro. Era medo de acordar e passar mais um dia sem um mínimo tostão para qualquer coisa que quisesse fazer. Era medo de acordar e ver que na caixa de entrada, novamente, ninguém havia retornado as dezenas de e-mails enviados com curriculuns. Era medo de mais um dia sem que o telefone tocasse com qualquer proposta para fazer qualquer coisa dentre aquelas que me tornei apto para realizar e ser remunerado. Era medo de levantar da cama e sentir-me um inválido social. Mas hoje preciso dar foco a outro medo.

'Este' Medo.
O medo de dar certo. O medo de alcançar o que outrora foi anseio. O medo de abdicar do que é porto seguro em nome do que é mar (um pouco) aberto. O temor sob a forma de "Será que quero mesmo?". Essa é a martelação constante dos últimos dias. O medo de dar certo. 
Foi em 2004, no auge dos meus quinze anos. Nutria já a algumas semanas curiosidades e interesses por conhecer uma garota e, como filho pródigo de uma sociedade sexista, beijá-la à boca (auge da atuação sexual que eu desenvolvia na época). Sabia e sentia que dela emanava o mesmo desejo, mas não conseguíamos simplesmente nos beijar - em uma casa desprovida de adultos, eu e ela sozinhos na sala assistindo um filme qualquer, algum outro adolescente gritou da cozinha: "Vocês parecem duas tartarugas querendo se beijar". De fato. No dia seguinte fomos ao PlayCenter (que os deuses da especulação imobiliária e do entretenimento o tenham) e, enfim, trocamos o beijo, enquanto dividíamos o carrinho na subida da montanha russa. A descida veio, e o beijo se desfez. Nos beijamos suados pelo sol da manhã e por ele, o medo. 
Medo de que o beijo não fosse tão bom quanto o papo, medo de que o beijo, ainda que prenunciado como desejo através de diversos signos por ambos, fosse negado no último instante, e desta negação nascesse o sentimento de rejeição, invalidez social (novamente). 
Insegurança. 'Este' medo. É este o medo. Por mais que passe anos desejando algo, que passe meses o planejando, que os pedregulhos pelo caminho tenham me feito desejar de maneira tão intensa - a ponto de por vezes acordar do sonho e desejar tocá-lo - quando parece que está para chegar o momento, a respiração é mais profunda, a hesitação ocorre. 

Questões do medo.
Será que é isso mesmo?
Será que quero realmente abdicar desta realidade com a qual já me acostumei em nome desta nova realidade a ser construída?
Será que todos os fatores estão certos para que nada dê errado?
Será que não estou metendo os pés pelas mãos?
Será que não estou colocando a carroça na frente dos bois?
Será que é isso mesmo que quero para a minha vida?
Será que isso é realmente algo tão grandioso assim a ponto de fazer-me não mais dormir tão bem assim? 
Será que deixei de dormir pois vejo-me próximo de tocar os sonhos de outrora?

Respostas ao medo.
O medo de acabar este texto. O medo de responder às questões. O medo de querer voltar atrás. O medo de desistir. O medo de... vocês lembram daquela frase do Renato Russo, não? O medo por ver-me transitar entre o "Hesito" e o "Êxito". Superar o primeiro, parece ser o caminho mais seguro para o segundo. 
Domingo, Dois de Fevereiro de Dois Mil e Quatorze. A cortina do quarto dela balançava pelos sopros frescos que amenizavam a sensação de forno naquele cômodo. Deitados em um colchão pequeno abaixo da janela, assistíamos aos movimentos da cortina, sentíamos a brisa do vento, observávamos o céu azul com poucas nuvens brancas - realizar esta descrição deu-me uma saudade tremenda do clima derrotante do verão. Timidamente falávamos daquilo que estava ocorrendo: minhas malas fechadas para voltar a ser paulistano, para iniciar uma jornada acadêmica em outro campus, para seguir a vida por outro rumo que, sabíamos, tinha tudo para nos afastar (como afastou). 
Hesito. Lembro-me do suor frio daquela tarde, da vontade de abrir mão de tudo. De desistir de pegar a carona que me traria a São Paulo, de não fazer a matrícula deixada para ser feita em cima da hora (pois queria fazê-la com total segurança e certeza e sem medo). Vontade de desfazer as malas. De relocar a casa cujas chaves havia entregado para a inquilina seguinte fazia poucas dezenas de horas. 
Foram meses construindo aquele momento. Aliás, foram meses trabalhando para que ele chegasse, e quando ele chega... Medo. 'Este' medo por seguir em frente, pela dita  "Próxima etapa". 

Nova jornada. Nova casa. Nova cidade. Novos locais. Novas pessoas. Nova rotina. 

ou

Desconhecida jornada. Desconhecida casa. Desconhecida cidade. Desconhecidos locais. Desconhecidas pessoas. Desconhecida rotina.

É curioso como 'neste' medo o trânsito entre o que atraí por excelência - o desconhecido, as novidades - é o que atemoriza por essência: o desconhecido, as novidades.
Sábado, um de março de dois mil e oito. Típico sol quente de verão a nascer em fim de madrugada já quente. Na garagem de casa um carro que foi pego emprestado (por ter porta malas mais amplo) era entupido com artefatos de uso doméstico: colchão enrolado, edredom, roupas, rádio, uma mesa desmontada... Encostei-me no portão, de costas para a rua e de frente para a traseira do carro, a porta aberta, as minhas coisas ali, todas empilhadas, amontoadas. Suspirei, não nego: "Será que quero mesmo fazer isso? Será que quero mesmo passar esses tais 'próximos anos' nessa tal 'Marília' frequentando essa tal 'Unesp' para fazer esse tal curso de 'Ciências Sociais'? 
Hesito versus Êxito. Independentemente do que se decida com relação ao primeiro, isto é, acatá-lo ou não, pode-se ter êxito no que se construiu adiante, pois a vida continua, lá ou cá. Desistir de algo é optar por outro algo. Tivesse eu hesitado em voltar para São Paulo em 2014, certamente teria êxito em outros algos pros lados Marilienses, e isso seria fruto do que se decidiu perante o hêsito.
Paralelos que não chegam a ser paradoxos. Contrários que não chegam a elucidar uma contradição. Talvez estejam todos os opostos conectados, portanto, formando círculos, pois empenhados em um mesmo objetivo: viver uma vida gostosa. O hesito e o êxito são, justamente, a busca qualitativa pelo que pode haver de mais refinado no que se entende como "Vida gostosa". 
E é por conta disso que sempre fui indeciso, entendo hoje, sempre busco compreender ao máximo qual será a situação da vida que repercutirá maior prazer, maiores sensações boas. 
Indecisões brabíssimas, pois qual sorvete me proporcionará maior prazer ao lambê-lo: um de chocolate amargo ou um de moussé de maracujá? Note, o sorvete amargo de chocolate doce, é um extremo quase oposto ao sorvete azedo de fruta azeda com um toque de doçura. Ainda que ambos sejam gelados, ainda que ambos sejam doces e ainda que ambos irão gerar-me um prazer, embora distintos. A questão sempre é: "Qual prazer quero sentir hoje?", isso em se tratando dos sabores que eu mais gostava na Lunatta (sorveteria cremosa de Marília), pois há outras questões do gênero. 
Por exemplo, em um de fevereiro de dois mil e quatorze, o meu questionamento era: "Qual prazer quero sentir nos próximos anos?". O que envolvia, sabia também, uma série de outras questões, todas intercambiáveis entre si: "De quais pessoas irei me afastar? De quais pessoas irei me aproximar? Quais espaços deixarei de frequentar? Quais espaços passarei a frequentar? Quais sabores provarei? Quais dissabores provarei? Quais caminhos farei? Quais caminhos deixarei de fazer?". Isso, pensado na situação do sorvete, é simples (e muitas vezes terminei por o resolver pedindo uma casquinha com duas bolas, o que me gerava uma terceira sensação de prazer: sentir na boca a fusão do amargo de chocolate doce com o extremo quase oposto, o azedo de fruta azeda com um toque de doçura), mas pensado nos caminhos da vida a longo prazo... são longos instantes de suspiros - indecisos, claro.

Medo nada mais é do que vontade de dar certo. Tanta vontade, tanto desejo, tanto certo, tanto bom, tanto gostoso, tanto tudo, que dá medo de não ter, não ser.
'Este' Medo, fazia tempo que não o sentia - 1274 dias, para ser preciso.  Três anos e lá vai Corintias de certezas e medos distintos a preencher os meus dias. Cansaços, tristezas, trabalhos, felicidades, rolês, manhãs semi desfalecido pelos excessos, desejos, contemplações, descobertas, destruições, laços... Mas 'este' medo, que talvez seja o símbolo não de uma virada de página, mas de uma passagem entre volumes distintos de um desses livros megalomaníacos publicados em volumes, fazia tempo que não o sentia. E, não nego, estava com saudades. Vida que anda, vida que segue, vida que vale. Sem temor perante os medos. Com todas as vistas ao êxito, sem medo do hesitar.

Ps.: acabei o texto e tô indo tomar sorvete.

Esperando o trem em dois mil e dezessete pensando no medo em meio a um denso momento de hesitação.
 
Pisando na lama sem medo em dois mil e treze em meio a um momento de festa pelo êxito.

Colocando quadros na parede em dois mil e oito após um êxito, após uma hesitação e entre um hesitar e outro. 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Eu nunca vou sarar dessas saudades? - V


[É impossível não dizer que este texto é também uma continuidade deste aqui].
Pois é, os dedos que escorregam a tela do celular levam os olhos a uma rápida sequência de imagens de um evento com algum convidado que rolou naquele salão, ou "Anfiteatro", para usar o termo correto e nobre. Puxa vida. Barbudos sentados nas cadeiras de couro esverdeado, cabeludas com blusas coloridas, educadores de longa data cujas assinaturas timbram minha oficialização para trabalhar no que trabalho e cujos nomes me remetem a momentos mais ou menos inesquecíveis. A mesa longa, alta, com uma extensa madeira, simples, lisa, funcional e bem preservada, é a mesma. 
Foi impossível não me recordar daquelas assembleias lotadas e fervilhantes que fazíamos lá, em que, dado instante, nos levantávamos e tirávamos todas as cadeiras para que nos largos degraus recobertos de uma madeira fina pudessem caber mais e mais estudantes. Exercício de democracia na prática.
E o dia em que mordi uma daquelas cadeiras assistindo a um show do Luca Bernard? 
Isso tudo aconteceu pela manhã, quer dizer, nas primeiras horas que passei acordado nesta sexta-feira em que lhes escrevo. Lá pelo meio da tarde, sem entender ao certo a razão, bateu uma ampla vontade de ouvir essa música aqui. Comecei a cantarolar, e então liguei um equipamento eletrônico com wifi para ouvi-la, e entendi algo novo sobre tudo isso que aconteceu, acontece.

LUGAR     SEGURO 

É isso, é para esse tipo de local que minha mente me leva nesses insuportáveis momentos de saudades. Foram anos questionando, "Eu nunca vou sarar dessas saudades?", 2014, 2015, 2016 e um trechinho de 2017 não nego, pois a saudade doía, insuportável não é adjetivo exagerado. 
Recordar-me do salão, da música, das pessoas, de tudo isso que aconteceu naqueles anos - 2008, 9, 10, 11, 12, 13... - é lembrar-me de que existem lugares seguros, de que já estive neles, de que sinto-me em um deles por ora e de que sei traçar caminhos para neles chegar. 
Que anos insuportáveis, logo após anos imensuráveis, foi impossível não me apegar aos locais seguros para me confortar e resignar a seguir adiante...
Eu nunca vou sarar dessas saudades, por mais que construa referenciais de segurança por outros locais e pessoas. Nunca irei sarar delas, e a elas, outras tantas se juntarão. E, honestamente, isso me soa algo esplêndido nesta sexta-feira.